terça-feira, 9 de junho de 2009

fado

Havia dias em que chegava a casa esbaforida, depois da corrida pela rua mais antiga do burgo entre a escola primária e a minha casa. Entrava e ouvia cantar o fado. Parava à escuta. Não era o disco da Amália. Era a minha mãe. Sentava-me nos degraus de pedra com a pasta pousada nos joelhos e pescoço dobrado para trás, fitando a clarabóia lá em cima, no topo da espiral de escadas. A voz da minha mãe vinha lá de cima, do céu. Os fados eram todos tristes, todos da Amália, todos sofridos.

Mas ela cantava-os melhor. Cantava-os enquanto picava cebolas para o estrugido, cortava cenouras aos bocadinhos, dividia batatas em palitos, descascava feijões e grãos-de-bico, enquanto partia unhas e decepava dedos.

Havia uma tristeza sem fim dentro da minha mãe, uma tristeza que eu não entendia. Calava-se quando ouvia os meus passos nas escadas. Eu sabia que engolia lágrimas para ninguém a ver chorar, mas a humidade ficava agarrada às pestanas, o inchaço vermelho às pálpebras; e ela dizia que era das cebolas e eu dizia que era do fado. O fado era o exorcismo dessa tristeza, compreendi depois, e não a razão da mesma. O fado é o esconjuro das almas nascidas no fado errado.

6 comentários:

blue disse...

é um exorcismo, sim.
cantar é-o por si só.
um belo texto, Maria.

maria n. disse...

Obrigada Cláudia.
Nós também cantávamos muito, lembras-te? :)

Helena disse...

Um belo texto, sim.
Obrigada!

cláudia disse...

lembro-me sim :)

gballand disse...

Um texto sensivel e comovente.

Anónimo disse...

Felizmente para mim, não é assim que recordo a minha mãe.