sexta-feira, 6 de novembro de 2009

os silvas

Deu-lhe para falar dos Silvas. O texto tinha por personagem principal um homem sem qualidades de apelido Silva. “Reparem bem”, dizia o professor, “esta personagem é tão desprezível que até o seu apelido o denuncia. Não sei o quê da Silva; como quem diz, das silvas, do mato, um animal”, e sacudia o braço para trás das costas como se estivesse a empurrar um Silva imaginário para longe dele, de volta à selva de onde não deveria ter saído. O professor não era Silva nem descendente de Silvas e sabia-o porque tinha uma árvore genealógica, à qual dava extrema importância, que o garantia.

Há dias, por acaso, fui cair numa página online, onde se falava dessa sua árvore, se bem que a propósito de outra pessoa da sua família. Lá estavam os não silvas seus antepassados, enumerados mais aos locais de origem, uns atrás dos outros; os de Fafe, os de Guimarães mais os não sei de onde. Não faço ideia dos motivos que levaram o jornal a descrever a árvore genealógica da personalidade, como se o facto de descender dos ás pela parte da mãe e dos bês pela parte do pai, tivesse alguma relevância nas suas qualidades ou defeitos, mas compreendo que às vezes, quando é necessário fazer esquecer deficiências pessoais, dá jeito ter uns antepassados ilustres para celebrar.

Tenho um carinho especial pelos Silvas, não de todos mas daqueles Silvas como quem diz, das silvas, do mato, uns animais. Estes Silvas, ao contrário do professor que tinha saído dum ramo especial da evolução humana, não se põem a pensar se o fulano ou sicrano da Silva que acabaram de conhecer é da família e não seguem bifurcações nas árvores genealógicas dos Silvas à procura de um nó comum que designe graus de parentesco. Sabem que acaba tudo na selva, no primeiro homo sapiens. São primos de toda a gente.

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