quarta-feira, 20 de maio de 2009

marylin

«People had a habit of looking at me as if I were some kind of mirror instead of a person. They didn't see me, they saw their own lewd thoughts, then they white-masked themselves by calling me the lewd one.» - Marylin Monroe

A Rosa era a prostituta mais conhecida do burgo. Uma mulher grande, gorda, cabeleira oxigenada, maçãs do rosto carmim e lábios cor-de-rosa, esborratados, vestia cores berrantes, minissaias e decotes que deixavam ver as pernas densas e a decadência das mamas descomunais que se fundiam com o abdómen. Passeava-se pela cidade, sorrindo para toda a gente, homem ou mulher, agarrada a uma mala de mão minúscula, fazendo torcer e virar todas as cabeças. A vida podia ser muito aborrecida numa cidade onde nada acontecia mas podia-se contar sempre com a Rosa para animar as ruas, as praças e os jardins. Passeava vagarosamente e os olhares pegavam-se-lhe iludindo-lhe a sensualidade - ela julgava que era a Marylin – mas o desejo que ela inventava nos olhares dos outros era de fuga à monotonia; era a vontade de condenar a indecência dela que reflectia a deles, a necessidade de sentir piedade, o pretexto para uma avé-maria por outra causa para desenjoar das muitas rezadas pelos órfãos de África, ou simplesmente de contemplar um espectáculo com o seu toque de burlesco. A Rosa era a puta dos pobres. Era com ela que rapazes ainda imberbes perdiam a virgindade, levados pela mão do padrinho, do tio, do irmão mais velho ou do próprio pai, ao casebre rural onde ela vivia, esperando pela sua vez na fila, com a nota de vinte escudos dobrada na palma da mão. Alguns deitavam-se sobre ela sem saber o que fazer e o acompanhante tinha de entrar e dar uma mão. Colocava-a sobre as nádegas do rapaz.
Gostava de olhar para ela e ela não se importava com o meu descaramento deslumbrado. Sorria infantilmente, com inocência, como os sorrisos dos rapazes que nela iniciavam a sua educação sexual, e passava, arrastando os tacões pela rua, em ziguezague para evitar os homens de branco, os da barbearia de um lado e os do talho do outro. Homens de branco costumavam levar as pessoas. As loucas. Como ela. Como eu.

3 comentários:

CCF disse...

Mulheres assim, que rompem de vermelho o quotidiano!
~CC~

maria n. disse...

Gosto dessa forma de o dizer. É mesmo assim.

gballand disse...

Um texto que nao vou esquecer facilmente...