
Acho inadmissível que uma mãe, ou um pai, dê aos seus filhos um gravador para registar uma aula, ainda mais quando sei, por experiência própria (como mãe), que a DREN funciona muito bem em questões de conflitos dos pais com as escolas. A DREN ouve os pais, investiga e resolve, não precisa de gravações coisa nenhuma, não precisa dos media para assegurar a resolução desses conflitos.
O que se passou naquela aula - a atitude da professora - é uma questão que não podemos simplesmente lamentar e repudiar sem tentarmos perceber as implicações da gravação. Se perdemos a capacidade de nos indignarmos com a bufaria, ainda para mais pública, não tardará muito até uma versão moderna do fascismo, propulsionado por uma tecnologia portátil e acessível a todos, se instalar. Teremos gravadores por baixo das nossas secretárias, nas nossas casas, câmaras nas salas de aulas - já acontece no Reino Unido -, nos hospitais, nas repartições públicas, nas universidades, no emprego; em todo o lado um gigantesco olho público zelando pelo nosso bom comportamento, certificando-se de que os nossos disparates não saem impunes, por todos, com mão pesada. Estaremos a permitir a criação de um sistema onde o grupo está acima do indivíduo e a vingança acima da reconciliação. Uma frase mal dita, um disparate isolado num momento de tensão, quando nem sabemos da existência desse olho e ouvido público, destruir-nos-á. Estaremos a negar ao indivíduo as suas liberdades civis, o direito de se auto corrigir, de aprender com os seus erros, assim como o direito a uma segunda oportunidade, a um recomeço.
A legitimidade moral que alguns pais atribuem à gravação é nula. Não é isto que quero para os meus filhos. Eles sofrerão muito mais numa sociedade supra vigilante, onde os informadores são estimulados e aplaudidos, do que com os traumas que uma professora supostamente lhes causará com um comportamento inadequado numa aula.
3 comentários:
Viste que este tema está a continuar no Quase em Português?
Eu bem digo que este blogue é muito bom: até reanima blogues moribundos...
lol
Já vi, Helena, e já respondi ao Lutz, embora um pouco à pressa.
Espero que se perceba que não estamos a defender o encobrimento e esquecimento dos abusos.
Ou seja: espero que se perceba que não concordamos com nenhum tipo de abuso - nem o dos professores, nem o de pais a ensinarem filhos a cometerem ilegalidades.
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