quinta-feira, 7 de maio de 2009

atum com azeitonas

Voltei da casa da minha irmã com alguns livros que me emprestou. Sentei-me a virar páginas, como sempre faço, tentando decidir qual vou ler primeiro. Quando abri As Palavras e as Coisas de Foucault, deparei com uma receita escrita por ela. Atum com azeitonas. Um livro assim, com uma receita manuscrita lá dentro, nunca poderia ter vindo da biblioteca de um homem. Imagino a minha irmã lendo Foucault com a televisão ligada, a interromper a leitura para apontar uma receita que alguém confeccionava num qualquer programa de culinária, terminá-la assim: “Agitar suavemente o tacho para misturar todos os ingredientes” e, tranquilamente, voltar à leitura, satisfeita por já não ter de pensar no que vai fazer para o jantar.
Não sei se todas as mulheres são assim, se guardam pedaços do quotidiano dentro dos livros. Há livros de mulheres que têm lá dentro papelinhos coloridos de um lado, prateados do outro, daqueles com que se embrulham os bombons, outros têm uma folha de uma qualquer planta, uma flor silvestre espalmada, uma palhinha que talvez tenham apanhado nos campos, toda mordida, um pedaço de cartão da embalagem dos collants a servir de marcador, a fotocópia de um bordado em ponto de cruz, papéis com anotações sobre o que leram, uma ou outra frase que se quis escrever e não apenas sublinhar, o coração de cartolina que o filho fez na escola para o dia da mãe e, claro, as receitas. Os livros das mulheres estão cheios de ingredientes que convém agitar suavemente para se fundirem com as palavras, tudo muito bem misturado como o atum com azeitonas.

De repente, As Palavras e as Coisas talvez se torne uma leitura mais fácil.

3 comentários:

Rita Maria disse...

Delicioso!

Fatima disse...

Gostei muito deste texto. Fez-me rir baixinho (não vá a maltosa acordar)... Mas, afinal quem é que guarda receitas num livro de filosofia?

menina limão disse...

logo hoje que pensava fazer um post sobre atum.

(juro)

eu sou das que deixam marcas nas suas leituras. geralmente sublinho os livros, mas também faço anotações à margem e a última página pode muito bem servir de bloco de notas, já sem qualquer relação com a leitura. às vezes regresso aos livros lidos e rio-me com o que lá encontro.