sexta-feira, 10 de abril de 2009

senhor dos passos

A procissão do Senhor dos Passos acontecia à noite pelas ruas do burgo; uma multidão muda empunhando velas pela escuridão, seguindo o Cristo gigantesco com a cruz no ombro sobre os ombros de quatro homens robustos de batina roxa, o silêncio quebrado a intervalos rítmicos pelos tambores que entoavam dentro do meu peito feito caixa de ressonância. Era assustador. A noite revelava todos os fantasmas, todas as criaturas fantásticas, todos os monstros que povoavam os sonhos, mas eu sabia que esses não existiam, eram imaginação. Era outra sorte de medo. Este medo do Senhor dos Passos era diferente. A estátua era muito realista; um rosto sofrido encimado pela coroa de espinhos, um corpo vestido de roxo curvado sob o peso da cruz, uns olhos que me seguiam e pareciam acusar-me de qualquer coisa – ele sabia de certeza que eu tinha comido as amêndoas que deveria ter oferecido à professora. Os romanos quase se materializavam sob os meus olhos, pior, eu era um deles, acertando o som das minhas sandálias latinas pelo som do calçado da multidão nas ruas graníticas e pela música de cadafalso.
Ia deitar-me cheia de medo e culpa, e a minha irmã mais velha, para me distrair, contava-me histórias do Edgar Alan Poe, noite dentro. O Poe nunca me fez sentir culpada de nada embora às vezes me metesse medo. Mas era outra sorte de medo.

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