sábado, 25 de abril de 2009

registo

Encontrei a fotografia que tirei para o meu primeiro bilhete de identidade pouco depois do 25 de Abril. Um vestido estampado com flores vermelhas e com golas redondas rendadas rentes ao pescoço. Sufocavam-me as golas. Sufocaram-me ainda por muito tempo.
No Registo Civil havia uma fila de crianças que entravam por uma porta e saíam por outra com um dedo negro. Registaram as linhas do meu dedo indicador direito e a minha altura no metro de pau que teve de ser ajustado acima das medidas de criança porque eu era muita alta para a minha idade. Os bilhetes demoravam muito tempo a chegar - tudo o que era feito em Lisboa atrasava-se uma eternidade, menos as cartas de condução que demoravam menos tempo porque lá eram mais fáceis de comprar – e eu passava semana sim, semana não no Registo Civil para perguntar se já tinha chegado. Quando chegou, o meu bilhete de identidade democrático era igualzinho ao bilhete de identidade fascista da minha irmã.

2 comentários:

Ana Cristina Leonardo disse...

qualquer bi tem sempre um carácter algo fascizante, é o que é

maria n. disse...

pois é Ana :)