quinta-feira, 30 de abril de 2009

paridade

As mulheres não pensam apenas na política, pensam em tudo. Intensamente. Como pode o meio político institucionalizado, adaptado ao papel tradicional do homem ao longo de séculos de exclusão feminina, lidar com uma coisa dessas? Não pode e por isso exige mulheres que respeitem o falo e ajam como se tivessem um porque assim podem ser facilmente classificadas como homens menores, incapazes, incompetentes. Substituíveis por homens a sério. É por isso que a lei da paridade, que não o é porque um terço não é paridade, não impede que as mulheres, depois de eleitas, sejam substituídas por homens. É uma lei que pretende institucionalizar a mulher mas não a integra.

Não é por falta de competência que as mulheres fogem da política mas sim porque a política institucional está viciada a favor do homem. As mulheres vêm-na como um jogo com regras obscuras, castradoras até, difíceis de penetrar, com uma organização do tempo que não se adapta às muitas tarefas pelas quais a mulher ainda é a maior responsável; um sistema onde as poucas mulheres existentes actuam mais como símbolos de género do que como uma força política real.
Quando ouço e leio tanta gente exprimir-se contra a lei da paridade contrapondo a competência à obrigatoriedade da presença de mulheres nas listas, traindo o que lhes vai na alma, que as mulheres incluídas nas listas por força da lei são forçosamente incompetentes porque caso contrário avançariam mesmo sem lei (como se a competência fosse tudo o que a mulher precisa para ingressar na política), tenho de dar razão a Cavaco Silva que dizia em 2006 que esta lei era um atestado de menoridade passado às mulheres. Dou-lhe razão porque é isso que a opinião pública está a fazer. Mas, por outro lado, não me parece que o número de mulheres vá aumentar sem uma mudança de fundo na política e, claro está, não são os homens que a vão fazer. É nesse sentido, e só nesse, que sou a favor da lei da paridade, como medida de transição. É preciso meter lá mais mulheres para que haja mudanças estruturais que estimulem uma maior participação feminina no futuro sem recurso à lei.

4 comentários:

blue disse...

recordo-me sempre da vereadora eleita em terceiro ou quarto lugar, que teve assento na câmara municipal e que, quando apresentou a sua primeira proposta, foi tratada com o maior desprezo possível pelos seus parceiros. tanto jeito que deu tê-la a enfeitar a lista e que aborrecimento que ela pudesse falar...

maria n. disse...

Também conheço casos assim. As mulheres não deveriam ser um problema, elas têm melhores notas na escola e na universidade, adaptaram-se bem ao mercado de trabalho, estão presentes em todos os sectores. Elas não são de facto um problema e é uma pena que estas análises que se fazem a propósito da lei se fiquem pelo superficial. Seria mais útil tentar perceber as verdadeiras causas desta ausência de mulheres na política porque quando não se fazem, a ideia que fica é precisamente a de que elas não querem porque são preguiçosas e incompetentes, que a política não é da natureza delas. E pior, muitas acabam por acreditar nisso.

blue disse...

concordo contigo. só para completar a história: a senhora em questão, que teria cinquenta e muitos, foi humilhada em público - na reunião de câmara - e excluída de qualquer participação no grupo político que presidia à autarquia.

maria n. disse...

Uma tristeza, Cláudia. É de admirar a persistência e a coragem dessas mulheres.