domingo, 5 de abril de 2009

lord of the flies

Os rapazes observavam as carnes estendidas no expositor dentro do balcão. Um cabrito serrado ao meio, simétrico e inteiro, com os órgãos repartidos por ambas as metades, era o objecto de atenção e fascínio. O mais velho apontava e pronunciava os nomes das partes, o fígado, os rins, os pulmões, o coração, o cerebelo, mostrando a utilidade das aulas de ciências nas quais, disse, tinha tocado e apalpado o cérebro dum porco. O mais novo queria saber se doía ser morto e o outro logo disse que sim, dói muito, porque os porcos gritam quando o vizinho os mata. Contemplativos ficaram-se de olhos afundados no cadáver, imagens de matanças atravessando-lhes as partes, talvez. Não havia tristeza ou revolta pela carnificina, nem tão pouco alegria ou sadismo, apenas um fascínio curioso que me fez interrogar se seria este o sentimento primário que originou um outro, mais cruel, dos rapazes do Lord of the Flies.

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