sexta-feira, 17 de abril de 2009

amor

A Elvira subia as escadas até ao sótão. Despia-se apalpando os colchetes metálicos da saia e os botões da blusa, fazendo-os saltar para fora das casas. Apalpava e puxava os ganchos que prendiam o cabelo que assim desfeito, sem cuidado nem vaidade, escorria troncos grossos sobre as clavículas e as omoplatas. O espelho colossal na sua nudez, cúmplice da luz, açambarcava tudo: todo o quarto, todo o corpo, os abraços, os beijos, os entrelaçares de pernas nas almofadas, mãos sobre seios, tudo isso e ainda mais que trocava consigo. Eu - tinha por hábito esconder-me dentro dos armários e gavetões - observava-a no espelho pela frincha do pesado guarda-vestidos da minha bisavó, carregado de roupas antigas e naftalina, entre fronhas e lençóis bordados por ela, caixas de chapéus, espartilhos e véus, testemunhando oculta na penumbra o desenrolar de um amor prestes a explodir. Explodia despudorado e a Elvira adormecia bonita, mansa, troncos grossos escorrendo nas almofadas.

Com a revista nos joelhos, enquanto pintava as unhas, as dela e as minhas, sentadas no telhado que fugia das janelas do sótão, enlaçadas em pérolas de fantasia, rendas da bisavó e maquilhagem surripiada do psiché da minha mãe, explicava-me o amor que lia nas fotonovelas que alugava por dez tostões na loja da Sãozinha e cujo enredo me contava; histórias de amor côncavas, fotografia atrás de fotografia, de mulheres e de homens que não desligavam nunca a ternura da turgidez do machismo. Fingiam. Claustrofóbicas, incontinentes nos amo-tes ou te amos, dependendo da origem, mas ausentes de tranças de pernas, mãos sobre seios sobre púbis, espelhos colossais e luz. O amor era a explosão que a Elvira aprendia nas implosões do seu corpo e das quais não me falava, não me contava e que, por isso, das profundezas do guarda-vestidos que me vestia eu lhe roubava.

1 comentário:

CCF disse...

Guardamos para sempre estas coisas vividas/roubadas!
~CC~