quinta-feira, 30 de abril de 2009

arrumar livros


Tim Walker (inspirado talvez nesta fotografia de Claude Cahun)

Tenho adiado a limpeza e organização das minhas estantes mas a citação em baixo, pescada por Jacques Bonnet num manual de governo da casa vitoriano (Des bibliothèques pleines de fantômes), deu-me uma ideia, contrária à que se afirma entre as aspas, que talvez me motive para essa tarefa morosa: alcovitar a minha literatura. Vou fazer casamentos hetero e homo, ménages à trois, incestos, uniões e desuniões de facto, e tudo mais de que me lembrar.

«La parfaite maîtresse de maison veillera à ce que les œuvres des auteurs hommes et femmes soient décemment dissociées et placées sur des rayons séparés. Leur proximité sauf à être mariés ne pouvant être tolérée.»

É tradição representar os autores junto aos livros, sentados em poltronas confortáveis ou por trás de secretárias submersas em papéis. Não percebo porque não aparecem fotografados junto a um monte de louça para lavar, um monte de roupa para brunir, um monte de lenha para empilhar. Uma esfregona na mão. Se eu fotografasse os meus autores e autoras, e se me exigissem um retrato junto aos livros, clonaria a modelo da imagem que aqui pespego. Gostava de os ver assim, nus entre as prateleiras, coabitando a promiscuidade literária que donas de casa de ocasião, especialistas na lida da casa como eu, se entretêm (e divertem) a planear.

masoquismo

Raramente gosto do que escrevo. Partilhar alguma coisa do que escrevo é um acto de auto mortificação.

paridade

As mulheres não pensam apenas na política, pensam em tudo. Intensamente. Como pode o meio político institucionalizado, adaptado ao papel tradicional do homem ao longo de séculos de exclusão feminina, lidar com uma coisa dessas? Não pode e por isso exige mulheres que respeitem o falo e ajam como se tivessem um porque assim podem ser facilmente classificadas como homens menores, incapazes, incompetentes. Substituíveis por homens a sério. É por isso que a lei da paridade, que não o é porque um terço não é paridade, não impede que as mulheres, depois de eleitas, sejam substituídas por homens. É uma lei que pretende institucionalizar a mulher mas não a integra.

Não é por falta de competência que as mulheres fogem da política mas sim porque a política institucional está viciada a favor do homem. As mulheres vêm-na como um jogo com regras obscuras, castradoras até, difíceis de penetrar, com uma organização do tempo que não se adapta às muitas tarefas pelas quais a mulher ainda é a maior responsável; um sistema onde as poucas mulheres existentes actuam mais como símbolos de género do que como uma força política real.
Quando ouço e leio tanta gente exprimir-se contra a lei da paridade contrapondo a competência à obrigatoriedade da presença de mulheres nas listas, traindo o que lhes vai na alma, que as mulheres incluídas nas listas por força da lei são forçosamente incompetentes porque caso contrário avançariam mesmo sem lei (como se a competência fosse tudo o que a mulher precisa para ingressar na política), tenho de dar razão a Cavaco Silva que dizia em 2006 que esta lei era um atestado de menoridade passado às mulheres. Dou-lhe razão porque é isso que a opinião pública está a fazer. Mas, por outro lado, não me parece que o número de mulheres vá aumentar sem uma mudança de fundo na política e, claro está, não são os homens que a vão fazer. É nesse sentido, e só nesse, que sou a favor da lei da paridade, como medida de transição. É preciso meter lá mais mulheres para que haja mudanças estruturais que estimulem uma maior participação feminina no futuro sem recurso à lei.

sábado, 25 de abril de 2009

registo

Encontrei a fotografia que tirei para o meu primeiro bilhete de identidade, pouco depois do 25 de Abril. Um vestido estampado com flores vermelhas e golas redondas rendadas rentes ao pescoço. Sufocavam-me as golas. Sufocaram-me ainda por muito tempo.
No Registo Civil havia uma fila de crianças que entravam por uma porta e saíam por outra, exibindo um dedo negro muito levantado. Registaram as linhas do meu dedo indicador direito e a minha altura no metro de pau, que teve de ser ajustado acima das medidas de criança porque eu era muita alta para a minha idade. Os bilhetes demoravam imenso tempo a chegar. Tudo o que era feito em Lisboa atrasava-se uma eternidade, excepto as cartas de condução que demoravam menos tempo porque lá eram mais fáceis de comprar. Passava, semana sim semana não, no Registo Civil para perguntar se já tinha chegado. Quando chegou, o meu bilhete de identidade democrático era igualzinho ao bilhete de identidade fascista da minha irmã.

25


Emma Hack

De blogue em blogue, velhas canções, o Zeca Afonso, o Chico Buarque, tanto mar, tanto mar, fotos, relatos, testemunhos pessoais, capitães, memórias que se esgravatam em baús, uns pessoais, outros colectivos, tuita-se a revolução, comemora-se.
Todos os anos me emociono com as fotografias do povo na rua, os abraços nos tropas, os cravos nas mãos, os rostos pacíficos das mulheres, tanto mar, tanto mar ainda por desbravar.

Todos os anos, todas as coisas, todos os cravos.

sexta-feira, 24 de abril de 2009


Carl Larsson

nome de código

«Someone should try an experiment with himself: he should forget everything he knows about the times and its relativity amplified by its familiarity, and then come into this age as if he were from another planet, and read some book, or some article in the newspaper: he will have this impression: "Something is going to happen tonight, or else something happened last night!"» - Kierkegaard, The Present Age (1846)


há coisas das quais os livros de história não falarão
conversas em ruas estrangulas cinzentas
revoluções feitas com murros no peito, na mesa
segredos prometidos no ouvido dos bastidores
a homens sombreados pelo movimento das pás
de uma ventoinha no tecto de uma casa outrora imponente.

há homens que não verão os seus retratos nos livros de história
testemunhas da mentira que outros lábios queimam na pronúncia
faróis amarelos na noite sob a chuva
o cigarro na esquina
o nome de código
o nome de código de que ainda me lembro.

há segredos roubados por meninas de rostos angélicos
que a história nunca saberá
guardam-nos nas tranças cortadas em caixas floridas
dentro de gavetões ao lado de uma colecção de borboletas.


marianne goldin

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Watt


Li-o inúmeras vezes e de cada vez que o faço entendo-o menos, mas gosto de o ler. Já não me interessa entendê-lo. Gosto de o ler pelo prazer de ler frases assim:

As for his feet, sometimes he wore on each a sock, or on the one a sock and on the other a stocking, or a boot, or a shoe, or a slipper, or a sock and boot, or a sock and shoe, or a sock and slipper, or a stocking and boot, or a stocking and shoe, or a stocking and slipper, or nothing at all. And sometimes he wore on each a stocking, or on the one a stocking and on the other a boot, or a shoe, or a slipper, or a sock and boot, or a sock and shoe, or a sock and slipper, or a stocking and slipper, or nothing at all.

ou assim:

The fishwoman pleased Watt greatly. Watt was not a woman's man, but the fishwoman pleased him greatly. Other women would perhaps please him more, later. But of all the women who had ever pleased him up till then, not one could hold a candle to this fishwoman, in Watt's opinion. And Watt pleased the fishwoman. This was a merciful coincidence, that they pleased each other. For if the fishwoman had pleased Watt, without Watt pleasing the fishwoman, or if Watt had pleased the fishwoman, without the fishwoman pleasing Watt, then what would have become of Watt, or of the fishwoman?

Beckett tira-nos tudo - "For if there were two things Watt disliked, one was the moon, and the other was the sun." e "And if there were two things that Watt loathed, one was the earth, and the other was the sky." - e deixa lá o trivial. É esse trivial e o ritmo com que o descreve, que me diverte.


XKCD Webcomic

sábado, 18 de abril de 2009

Susan Boyle

De vez em quando o mundo precisa de aliviar a sua consciência e recompensar todos aqueles que maltrata e exclui e fá-lo adoptando a excepção que confirma a regra. A Susan Boyle vai vencer o Britains Got Talent e vai vender milhões de CDs e de objectos onde está escrito Don't Judge a Book By It's Cover e I Dreamed a Dream. Sei de tudo o que rodeia estes sucessos, da exploração dos sentimentos do público através do underdog, de quem todos se riem e por quem se embaraçam, mas que surpreende pelo talento. Sem dietas, botox, depilação, idade considerada apropriada, tinta no cabelo e silicones, sai do fundo do poço para vencer. Arranca-nos lágrimas fáceis quando começa a cantar I dreamed a dream in time gone by. São lágrimas fáceis porque invocam sentimentos depositados muito perto dos olhos.
Tudo isto tem a ver connosco, de uma forma ou de outra; todos queremos ser julgados pelas nossas capacidades e não pelo invólucro embora não hesitemos em embelezar o invólucro porque ajuda e, muitas vezes, é determinante. Emociona aquela voz bonita que sai de um corpo e uma atitude tão anti-indústria da música e do estrelato, para nos provar o quão certeiro é o ditado que diz que as aparências iludem. Mas continuaremos a julgar pelas aparências precisamente porque elas iludem e nós gostamos que nos iludam. Não tenho dúvidas nenhumas quanto a isso.

Susan Boyle no Britains Got Talent

gatos





fotos daqui

sexta-feira, 17 de abril de 2009

amor

A Elvira subia as escadas até ao sótão. Despia-se apalpando os colchetes metálicos da saia e os botões da blusa, fazendo-os saltar para fora das casas. Apalpava e puxava os ganchos que prendiam o cabelo que assim desfeito, sem cuidado nem vaidade, escorria troncos grossos sobre as clavículas e as omoplatas. O espelho colossal na sua nudez, cúmplice da luz, açambarcava tudo: todo o quarto, todo o corpo, os abraços, os beijos, os entrelaçares de pernas nas almofadas, mãos sobre seios, tudo isso e ainda mais que trocava consigo. Eu - tinha por hábito esconder-me dentro dos armários e gavetões - observava-a no espelho pela frincha do pesado guarda-vestidos da minha bisavó, carregado de roupas antigas e naftalina, entre fronhas e lençóis bordados por ela, caixas de chapéus, espartilhos e véus, testemunhando oculta na penumbra o desenrolar de um amor prestes a explodir. Explodia despudorado e a Elvira adormecia bonita, mansa, troncos grossos escorrendo nas almofadas.

Com a revista nos joelhos, enquanto pintava as unhas, as dela e as minhas, sentadas no telhado que fugia das janelas do sótão, enlaçadas em pérolas de fantasia, rendas da bisavó e maquilhagem surripiada do psiché da minha mãe, explicava-me o amor que lia nas fotonovelas que alugava por dez tostões na loja da Sãozinha e cujo enredo me contava; histórias de amor côncavas, fotografia atrás de fotografia, de mulheres e de homens que não desligavam nunca a ternura da turgidez do machismo. Fingiam. Claustrofóbicas, incontinentes nos amo-tes ou te amos, dependendo da origem, mas ausentes de tranças de pernas, mãos sobre seios sobre púbis, espelhos colossais e luz. O amor era a explosão que a Elvira aprendia nas implosões do seu corpo e das quais não me falava, não me contava e que, por isso, das profundezas do guarda-vestidos que me vestia eu lhe roubava.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

mankind is no island



Curta metragem inteiramente filmada com um telemóvel nas ruas de Sydney e Nova Iorque, vencedora do Tropfest NY 2008.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

círculos


Botticelli, mapa do inferno de Dante

O politico que vacila, a mãe que sofre, os soldados que apenas seguem ordens, o traidor, os trinta dinheiros, o clero comprometido com os seus interesses, o povo facilmente manipulável, os intérpretes e os manipuladores dos acontecimentos, a evangelização da palavra, qualquer palavra, as anunciadas curas de todos os problemas, as promessas e as profecias, o odor agressivo dos perfumes.

De repente sente-se que toda a história, toda a humanidade, caminha em círculos.

calo

Não me fez mal nenhum, nunca o vi em carne e osso, possivelmente é uma excelentíssima pessoa, mas não posso com a imagem televisiva do Paulo Portas. Irrita-me aquele ar de menino arrogante, o penteado, a pose que dá ao discurso, os beijos na cara do povo quando tenta parecer-se com o povo. O único político que sabia ser povo é o Mário Soares. Estava à vontade e nessa vontade não transparecia esforço, ou enfado como acontecia com o Freitas do Amaral que recusou apertar a mão do Sr. Joaquim, que tinha por ele grande admiração e nele grande esperança, depois de os jornalistas terem levantado arraial da praça. Ficou ali especado, o Sr. Joaquim, entre os despojos da campanha, virando as mãos, palmas para cima, palmas para baixo, perguntando aos outros velhos se estavam sujas, as mãos rejeitadas onde se abria um novo sulco, um novo calo. Nunca mais foram as mesmas.

Estou convencida que a terra comeu o Sr. Joaquim na sepultura e deixou o calo na ossatura da mão.

senhor dos passos

A procissão do Senhor dos Passos acontecia à noite pelas ruas do burgo; uma multidão muda empunhando velas pela escuridão, seguindo o Cristo gigantesco com a cruz no ombro sobre os ombros de quatro homens robustos de batina roxa, o silêncio quebrado a intervalos rítmicos pelos tambores que entoavam dentro do meu peito feito caixa de ressonância. Era assustador. A noite revelava todos os fantasmas, todas as criaturas fantásticas, todos os monstros que povoavam os sonhos, mas eu sabia que esses não existiam, eram imaginação. Era outra sorte de medo. Este medo do Senhor dos Passos era diferente. A estátua era muito realista; um rosto sofrido encimado pela coroa de espinhos, um corpo vestido de roxo curvado sob o peso da cruz, uns olhos que me seguiam e pareciam acusar-me de qualquer coisa – ele sabia de certeza que eu tinha comido as amêndoas que deveria ter oferecido à professora. Os romanos quase se materializavam sob os meus olhos, pior, eu era um deles, acertando o som das minhas sandálias latinas pelo som do calçado da multidão nas ruas graníticas e pela música de cadafalso.
Ia deitar-me cheia de medo e culpa, e a minha irmã mais velha, para me distrair, contava-me histórias do Edgar Alan Poe, noite dentro. O Poe nunca me fez sentir culpada de nada embora às vezes me metesse medo. Mas era outra sorte de medo.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

solo quiero caminar (2)



yo solo quiero caminar
como corre la lluvia del cristal
como camina el río hacia la mar
lorei lorei loreilo......... (bis)

repicando campanadas
la torre de las campanas(bis)
y un rayo de sol alumbra
la carcel de la mañana
y aguruuguuu aguruguuuu
aguruuguuuuuuaaaa.

- E tu que queres? - perguntou-me o professor de guitarra clássica na minha primeira aula.
- Eu só quero tocar como o Paco de Lucia.
Hoje, eu só quero caminhar, correr, correr, como corre a chuva de cristal, como corre o rio até ao mar, como correm os seus dedos pelas cordas daquela guitarra.

solo quiero caminar

Ontem foi o dia internacional do povo romani e tal como se passa com a ghetização dos ciganos em Itália, que continua a bom ritmo, nobody gives a fuck.

"Eu quero uma revolução contra os ciganos... Eu quero eliminar todas as crianças ciganas que roubam." - Giancarlo Gentilini, vice-presidente da câmara de Treviso, que admite aplicar o "Evangelho segundo Gentilini" e os ensinamentos da escola fascista.

Os roubos parecem ser a grande preocupação das autoridades embora os comportamentos criminosos sejam mais graves e mais difundidos nas camadas mais altas do governo italiano, encabeçado por Berlusconi que se auto-ofereceu imunidade e dissolveu o gabinete do alto-comissário anti-corrupção.

Este relatório, The Life and Death of Roma and Sinti in Italy: A Modern Tragedy, dá-nos conta do preconceito, ódio e violência dirigidos contra o povo romani perseguido pelo crime da pobreza.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

telefone


No liceu havia a mania dos livrinhos de autógrafos. Hoje, enquanto organizava caixas com papéis, encontrei o meu. Está repleto de dedicatórias dos amigos, poemas mais ou menos previsíveis, frases feitas e clichés, citações e desenhos, promessas de amizade e memória eterna, alguns autógrafos de gente com quem me cruzei, às vezes por mero acaso. O mais original é o do António Pinho Vargas. Tem um número de telefone por baixo do seu autógrafo. Um número antigo como já não se usa e que pertence à mesma categoria do velho telefone da casa dos meus pais que também já não se usa. Existe entre outras antiguidades. Decora.

terça-feira, 7 de abril de 2009

invisível


Limor Livnat e Sofa Landver fazem parte do governo israelita como se vê pela fotografia superior onde aparecem junto dos outros ministros. Dois jornais ultra ortodoxos judeus entendem que elas não devem estar lá; o Yated Neeman alterou digitalmente a fotografia substituindo-as por homens e o The Shaa Tova limitou-se a removê-las.

As mulheres na política costumam ser apagadas mas isto ultrapassa o ridículo.

via

domingo, 5 de abril de 2009

lord of the flies

Os rapazes observavam as carnes estendidas no expositor dentro do balcão. Um cabrito serrado ao meio, simétrico e inteiro, com os órgãos repartidos por ambas as metades, era o objecto de atenção e fascínio. O mais velho apontava e pronunciava os nomes das partes, o fígado, os rins, os pulmões, o coração, o cerebelo, mostrando a utilidade das aulas de ciências nas quais, disse, tinha tocado e apalpado o cérebro dum porco. O mais novo queria saber se doía ser morto e o outro logo disse que sim, dói muito, porque os porcos gritam quando o vizinho os mata. Contemplativos ficaram-se de olhos afundados no cadáver, imagens de matanças atravessando-lhes as partes, talvez. Não havia tristeza ou revolta pela carnificina, nem tão pouco alegria ou sadismo, apenas um fascínio curioso que me fez interrogar se seria este o sentimento primário que originou um outro, mais cruel, dos rapazes do Lord of the Flies.