domingo, 8 de março de 2009

rio Lima

Deixaram muito espaço por preencher, muitos laços por prender. A vida tem o desígnio da rapidez e a velocidade dos acontecimentos é proporcional ao envelhecimento. Não há memória que diga da outra qual delas atravessou o rio Lima, porque as memórias também se perdem como os sentimentos se esquecem; ou como os rostos passam por nós dentro dessa velocidade e desse esquecimento. Tocam-nos, movem-nos, sofrem-nos, esquecem-nos. Talvez não os cruzaremos de novo, mas há rostos que nos acompanham até ao fim. São os rostos que cresceram ao lado dos nossos e se repartiram por outros lados no fim da infância ou da adolescência. O meu pai encontrou um amigo da infância. Quase setenta anos sem se verem, és tu M? Sim sou eu, reconhecendo-se como se ainda fossem meninos de bibe, caídos nos braços um do outro, espiando as rugas mútuas, a calvície, o tremor das mãos. E todos os dias se encontram no mesmo sítio à mesma hora. Dão grandes passeios e conversam, conversam. É isso que quero na minha velhice, na minha reforma. Uma pensão vitalícia de amigos perdidos da minha infância, da minha adolescência. Quero encontrá-los todos e dar passeios com eles. Perdoam-nos tudo; a flacidez do corpo, as manchas castanhas nas mãos, os descuidos, os transtornos, as falhas de memória, os amuos. E as traições. Ah, as traições… deixaremos essas para lá do rio Lima.

3 comentários:

blue disse...

encontro marcado!

CCF disse...

Muito bonito, também espero ter alguém assim!
~CC~

Maria N. disse...

Com certeza, Cláudia!

Obrigada CC :)