terça-feira, 24 de março de 2009

o que ele disse

“Direi che non si può superare questo problema dell’Aids solo con soldi e con slogan pubblicitari. Se non c’è l’anima, se gli africani non aiutano (impegnando la responsabilità personale), non si può superarlo con la distribuzione di preservativi: al contrario, aumentano il problema.” - Bento XVI

O que o tradutor do Google diz que ele disse, em português macarrónico:

"Eu diria que nós não podemos superar o problema da Aids somente com dinheiro e com slogans publicitários. Se não houver alma, se os africanos não ajudam (por cometer responsabilidade pessoal), não pode ser superado com a distribuição de preservativos pelo contrário, aumentar o problema. "

O que os jornais disseram que ele disse:

«No avião que o leva de Roma para Yaoundé, nos Camarões, o chefe da Igreja Católica insistiu em que o problema da seropositividade "não se pode resolver com a distribuição de preservativos", pois que, "pelo contrário, isso só irá complicar a situação".» - Público

O que a Fernanda Câncio disse que os jornais disseram:

«O papa disse mal do preservativo. Disse-o em África, à chegada aos Camarões, e a propósito do combate ao HIV/sida. "O preservativo não combate a sida. Só piora".»

Bento XVI não disse que o uso do preservativo e a distribuição de preservativos aumentam o problema da SIDA. Disse que essa distribuição, sem a ajuda e empenhamento da responsabilidade individual dos africanos, não só não resolve como até aumenta o problema da SIDA. A Helena explica tudo muito bem.

Pode-se concordar ou discordar desta afirmação. O que não se pode é fazê-lo partindo de um pressuposto falso (fácilmente verificável por uma consulta ao site do Vaticano). Ter um bom conhecimento da luta contra a SIDA em África, dos muitos contextos que existem, e estar a par dos estudos que se têm feito sobre a eficácia da distribuição de preservativos na redução do número de infectados nesse continente, também ajuda.

Adenda : a tradução para português já está disponível e reza assim:
«Diria que não se pode superar este problema da Sida só com dinheiro, mesmo se necessário, mas se não há alma, se os africanos não ajudam (assumindo a responsabilidade pessoal), não se pode resolver o flagelo com a distribuição de preservativos: ao contrário, aumentam o problema.» (obrigada Helena)

9 comentários:

Helena disse...

Obrigada pelo "muito bem". Confesso que as gramáticas me parecem todas escritas em grego: "oração subordinante adverbial condicionada"... socorro!

Essa lista de "diz que disse" parece aquele jogo dos miúdos: telégrafo. Ou o nome seria telefone avariado?

Do mesmo modo que exigimos do Vaticano que consulte a internet antes de reabilitar um Williamson, também temos de aprender a consultar a internet - de forma crítica e inteligente - antes de desatar a bater no homem.

Pessoalmente, acho que aquele "e até piora" estava a mais. Não fosse isso, e eu não veria por onde lhe pegar. É que ele nem negou a importância do preservativo, limitou-se a dizer que essa não é a solução principal, e é preciso pensar em tudo o mais. Convém também ler a pergunta que lhe tinha sido feita.

Ah, outra coisa: já é possível ler tudo isso traduzido manualmente.
("tradução manual"? Não deveria ser "tradução cerebral", para distinguir da "tradução mecânica"?)

Aqui, em português:
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2009/march/documents/hf_ben-xvi_spe_20090317_africa-interview_po.html

Maria N. disse...

Helena,
Julgo que é jogo de telégrafo.
Obrigada pelo link, não sabia que já existia em português.

Sobre procurar a informação, acabei de ler um texto da Fernanda sobre o caso dos miúdos ciganos no contentor, onde afirma que "a informação está disponível e não se pode escrever um texto sobre o assunto sem a procurar". Pois não. É pena que a regra não se aplique a todas as situações.

Ana Matos Pires disse...

"Pessoalmente, acho que aquele "e até piora" estava a mais". Estava a mais não, Helena, está a mais, e faz toda a diferença. Eu não esperava que o Papa fosse fazer a apologia do preservativo, como é óbvio e tendo em conta toda a história pregressa, mas aquela frase é que ele não podia ter dito.

Maria, parece-me que está a ser "mais papista que o papa" em relação ao texto a que se refere.

Helena disse...

Ana,
concordo: está a mais.

E todo o resto da resposta, exceptuando o "até complica": está certo ou errado?
Isto parece um caso de "wag the dog".
E a pergunta que lhe foi feita? Já agora, será que o jornalista está a insinuar que o tratamento antiretroviral facultado gratuitamente é irrealista e ineficaz? É que a Igreja Católica não se limita a debitar disparates sobre o uso do preservativo, também assegura cerca de 30% do apoio aos doentes com sida em África, e já salvou a vida a muitos milhares de crianças filhas de mulheres seropositivas.

O escândalo não está neste "e até piora".
O verdadeiro escândalo é que, desde há uma semana, os meios de comunicação social do mundo inteiro estão a dar eco a uma
manipulação grosseira de uma afirmação do Papa.
Ainda não vi nenhum a publicar a frase completa e a retractar-se.

A partir da resposta do Papa os jornalistas podiam ter informado sobre o trabalho da comunidade de Santo Egídio no combate à sida, podiam ter informado sobre todos os elementos importantes na luta contra a sida, para além do preservativo, mas não o fizeram.

Muito mal vamos, quando para produzir um escândalo já é necessário manipular aquilo que o Papa diz...

Ana Matos Pires disse...

Helena,

Falo por mim, o que me inyteressa são as consequências negativas em termos de saúde pública do que foi dito e isso, ninguém me conseguirá convencer do contrário, é criminoso, tendo em conta a personagem em causa. Em nenhum momento contestei o trabalho de alguns (muitos) católicos em África na luta contra este flagelo, mas dar com uma mão não justifica retirar com as duas, só isso.

Maria,

Aplica-se o mesmo princípio que refri no comentário que deixei à Helena às suas palavras, não me interessa a intensidade das manifestações anti, interessa-me a responsabilidade do Papa enquanto líder de opinião e de massas (até há gente que morra por esmagamento...) e essa é a responsabilidade que lhe imputo.

Helena disse...

Ana,
se o problema é mesmo a saúde pública, porque não critica os jornalistas que puseram na boca do Papa aquilo que ele não disse?
Este é um caso evidente de jornalismo profundamente desonesto.

A pergunta acusava: a Igreja tem uma posição ineficaz e inadequada para combater a sida.
A resposta foi: olhe que não, olhe que a Igreja faz imenso em África, olhe que nem só da distribuição de preservativos vive a luta contra a sida.
Se os jornalistas optaram por omitir da frase a oração condicionante (e isto é um erro gravíssimo!) para publicar parangonas a dizer que o Papa afirmou que os preservativos não resolvem e só complicam, o erro está do lado dos jornalistas.
Em última análise, e continue o primarismo que tem pautado este incidente, caso alguém acredite nisto, e não use preservativos, o "criminoso" é o jornalista e não o Papa.

A ver se nos entendemos:
- Quando alguém da Igreja aparece a dizer que os preservativos não protegem de vírus nenhum, isso é uma intromissão vergonhosa e inaceitável da Moral na Ciência.
- Quando alguém da Igreja aparece a dizer "meus irmãos, convertei-vos e não pequeis, praticai a castidade em vez do preservativo", isso é lá com ele e os irmãos que lhe dão ouvidos - e diga-me lá exactamente qual é a parte da doutrina moral da Igreja relativa à sexualidade que conduz a um aumento do número de infecções.
- Quando um jornalista aparece a mentir sobre o que foi dito, é sobre ele que recai o ónus da culpa quanto às consequências daquilo que publicou.

Maria N. disse...

A Ana tem razão e a Fernanda também. Concordo com algumas coisas que a Helena disse que são importantes, mas de facto quando ele fala de responsabilidade pessoal não inclui o uso do preservativo, ou inclui mas contradiz de seguida,o que vai dar no mesmo, como percebi lendo novamente a entrevista (acho que foi esperança a mais). Apologies.

Brikebrok disse...

mas o facto é que o Papa não disse que "os preservativos não protegem de virús nenhum " e cá estamos no jogo do telégrafo ... muito pertinente este post
Na Europa só se falou disso, aqui falou-se das pessoas que morreram espezinhadas, pela multidão desordenada que se acumulou para ver o Papa

Anónimo disse...
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