sábado, 21 de março de 2009

fora de jogo


Foto de Christophe Huet para a Decathlon

Não é nada fácil uma equipa de província chegar onde o Braga chegou, mas continua-se a reduzir estes grandes esforços e conquistas da periferia a notas de rodapé. Fala-se de um jogo ganho como quem fala de sorte, sem perceber que houve ali mais trabalho, suor e lágrimas do que numa vitória de um dos grandes, e da eliminação como se fosse há muito esperada.
Eu não gosto de futebol, não sei o que é um fora de jogo, mas sei que a província está sempre fora de jogo. Sou daquelas pessoas que mudam de canal quando as notícias entram no segmento futebolístico, mas até eu ouço falar ad nauseam no Benfica, no Sporting e no Porto e dos outros, quase nada. E se assim é no futebol, noutras áreas é muito pior. O constante apagamento da província, aqui e ali apanhada nos holofotes pela vagina do Coubert, uma mãe de Bragança, um Adelino Torres, o disparate dum padre, e outras derrotas idênticas a que chamam país real e que põem o nome da terra nas parangonas dos jornais e a abrir noticiários, iludindo por momentos o completo anonimato e irrelevância a que se é votado no resto dos dias, deixa estes esforços, que não se resumem ao desporto, fora de jogo. Perpetua a ilusão, tão portuguesa, da mediocridade genética da província, povoada por broncos de quem o resto do país se envergonha. Seria bom se todos os esforços, muitos por simples carolice e determinação das pessoas, tivessem a atenção e o respeito que merecem. É uma questão de equilíbrio.

4 comentários:

ecila disse...

Acho que tens toda a razao. Será que a regionalizacao contribuiria para um país mais equilibrado... desde que vivo na Alemanha que mudei a opiniao que tinha sobre o assunto. Parece-me que além de resolver muitos outros problemas, a regionalizacao trás também um maior equilibrio às regioes do país, a uma descentralizacao de interesses e noticias. Hoje em dia, considero que Portugal iria beneficiar muito desse tipo de reestruturacao.

Maria N. disse...

Ecila,
Penso que sim, que o país seria mais equilibrado. O problema é o país estar de tal forma condicionado para pensar em termos de tachos e de corrupção, que dificilmente a aceitará, se vier de facto a ser decidida por referendo.

ecila disse...

Outro problema, Maria, quanto ao referendo (nao sei se esse assunto devia ir a referendo, mas ainda me vou informar se houve referendo na Alemanha) é que os portugueses nao sabem o que é regionalizacao (nem eu sabia quando vivia aí aquando do primeiro referendo e votei nao, ai a burrice o que faz ;-) ). O que ouco muito quando aí vou é que num país tao pequeno nao tem lógica a regionalizacao, quando regionalizacao nao tem nada a ver com o tamanho do país. Em geral, acho as pessoas em Portugal muito desinformadas (porque a maioria baseia-se apenas nos nossos péssimos telejornais).

Maria N. disse...

O tamanho do país não é importante. Há países que têm regiões que não ultrapassam os 120 mil habitantes e isso não as impede de funcionar sem problemas. Outra ideia é a de que a regionalização aumenta a corrupção e que incentiva a desagregação do país colocando em risco a unidade nacional. Discordo de ambas porque entendo que esses riscos estão mais relacionados com uma centralização concentrada no seu umbigo do que com a descentralização. A nossa cultura da cunha, do favor e das luvas resulta de séculos de abandono da província, onde as pessoas, vivendo demasiado longe de quem mandava não tinham outra saída senão recorrer a quem conhecia quem mandava ou o primo dele, para resolverem os seus problemas. Isso ainda acontece nos dias de hoje.