quinta-feira, 5 de março de 2009

cálculo da atracção

A Isabela escreveu um texto muito bom (como o são todos que ela escreve) sobre o regresso do Rourke. Eu comentei, fazendo a comparação entre o regresso de Rourke e o da Marisa Tomei. Em resposta ao meu comentário, onde eu disse que para elas não há como escapar ao cálculo da atracção na contabilidade do sucesso, o Carlos Azevedo disse o seguinte:

“Depende daquilo a que elas pretendam ter sucesso. Na sétima arte, talvez o que diz, pelo menos em parte, seja verdade. Contudo, não é extensível a todas as actividades, e muito menos a todos os domínios da nossa existência.”

Achei este comentário muito interessante e respondo aqui porque me entusiasmei e fui escrevendo, escrevendo...

Ao cinema juntaria a televisão, moda, publicidade, imprensa, jogos de vídeo, literatura, enfim todas as actividades que comunicam com o público e transmitem formas de representação do nosso corpo. Este conjunto de actividades, o espectáculo, informa todos os outros mercados sobre a aceitação ou reprovação pública da nossa aparência, depois de a ter largamente influenciado. Quanto mais o nosso corpo se afasta das formas de representação dominantes, maiores são os obstáculos no nosso caminho, particularmente na afectividade e na sexualidade, planos onde facilmente se abala/destrói o amor-próprio e a auto-confiança, muito importantes para o sucesso noutros domínios da nossa existência.



Anúncio de iogurtes brasileiro. A modelo na imagem, que imita um ícone do cinema (American Beauty), é supostamente feia e se consumirmos aqueles iogurtes livramo-nos de um corpo assim. (clicar para aumentar).
Fizeram também outros com modelos imitando a Sharon Stone e a Marylin Monroe. Estes anúncios geraram polémica porque muitos homens acham as modelos atraentes (eu também acho) e porque a mensagem inscrita no cartaz,
"Esqueça. O gosto dos homens nunca vai mudar" é cruel. Milhares de cartazes passam a mesma mensagem mas de uma forma muito subtil.
Via


Tenho alguma dificuldade em lembrar-me de actividades profissionais onde o grau de atracção não conta. Pensei de imediato na literatura, na ciência, vida académica e outras que vivem exclusivamente da intelectualidade e onde não se espera que sejamos necessariamente atraentes, mas o cálculo da atracção funciona para os dois lados. Mulheres atraentes que se dedicam a actividades intelectuais têm de ultrapassar o estereótipo da bonita burra, e depois de o fazerem continuam a ser condicionadas pela sua aparência. “Ela não é burra MAS é atraente”, “A Joana Amaral Dias, a mulher mais bonita da política, foi apagada da fotografia” (esta quase me deixou na dúvida se o apagão era por causa da política ou da beleza da Joana). No reverso temos outro tipo de condicionamento: “Ela é gorda MAS é inteligente”. É aquela ideia de que na falta de atributos físicos não há outro remédio senão exercitar os neurónios, mas se os atributos estão lá os neurónios já podem ir dar uma volta que não interessam. Há ainda a situação, mais recente, onde se espera que a mulher seja ambas as coisas, atraente e inteligente, o que implica não se poder ser apenas esperta.
Na minha experiência pessoal tenho um exemplo onde de facto não senti qualquer condicionamento baseado na minha aparência, mas o trabalho era feito no computador, na minha casa. Não tinha contactos frequentes pessoais com quem me relacionava profissionalmente. Por mera observação pessoal, tenho a ideia de que numas actividades profissionais a nossa aparência conta mais que noutras, mas há alguma onde não conte mesmo nada?

4 comentários:

CCF disse...

Não, não há. A aparência conta sempre e isso é verdade para homens e mulheres, mas é para as mulheres que é mais penoso. Vivemos aprisionadas nos modelos que referes, mas cabe-nos dar a volta, é a nós que isso compete...felizmente há também homens que já vão deitando fora tais modelos, com dificuldade, pois também são condicionados.
~CC~

Maria N. disse...

Sim, os homens também são condicionados, e está a piorar como se vê pelo aumento das doenças relacionadas com as desordens alimentares entre os rapazes.
Já reparaste que a igualdade, em certas coisas, não significou a melhoria da condição feminina mas sim a degradação da masculina? É como nos salários. As diferenças são grandes e o nivelamento muito lento, mas mesmo esse pequeno progresso não é por nos pagarem mais, mas sim porque pagam menos aos homens.

blue disse...

um tópico difícil. os estereótipos são muitos, no que respeita à beleza feminina, mas hoje há mais liberdade, penso. quando eu tinha 11 anos, como a minha filha, quem não fosse magra, loira e de olhos azuis, não vestisse calças de ganga justas e não fumasse... hoje, a moda tem de tudo e, como ontem, a força e a auto-estima vêm de dentro...
quanto ao caminho a percorrer, eu diria que basta olhar para os conselhos de administraçao de empresas e bancos, para os novíssimos conselhos gerais das universidades, para o governo ou o parlamento, para os autarcas, para as revistas literárias, para os entrevistados da Ana Sousa Dias nos jornais ou na televisão... enfim, a lista poderia continuar, mas não vale a pena.

Maria N. disse...

Não só não vale a pena como está a tornar-se quase um tabu apontar essas desigualdades. Somos logo acusadas de vitimização e outros disparates semelhantes. Não chegamos lá sem as quotas. Tem os seus inconvenientes mas terá mesmo de ser assim.