terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

dòminus vobìscum

Enfiava o saiote branco da minha avó pela cabeça e atava o cordão da cintura no pescoço, no sítio onde um dia cresceria uma maçã-de-adão. A roda espalhava-se pelo corpo envolvendo-o todo, a bainha bordada escondendo os pés. O sacrário de papelão já estava pronto e no copo de barro que servia de cálice já tinha colocado as hóstias que recortara em papel. O meu pai ajudava à missa e a irmã Isabel era a única beata daquela igreja infantil. A cara de lua grave, cheia de concentração, iluminava-se depois de ter sido realizado o milagre da transformação do papel em corpo de Cristo. Virava-se então o padre para o sacristão e para a beata, e dizia:
- Dòminus vobìscum
- Et cum spiritu tuo – respondiam o meu pai e a minha tia.
A minha avó espreitava de olhos verdes arregalados da janela da cozinha, calando por momentos o tilintar dos barros e dos potes de ferro. Dòminus vobìscum, repetia em murmúrio. Para cada filho sonhara o mesmo sonho e talvez aquele, que ainda não sabia ler nem escrever mas tanto jeito mostrava para o latim, cumprisse a promessa que fizera a si mesma; que fosse padre o décimo primeiro filho porque aos outros faltara vocação. A dedicação que ele mostrava pela outra irmã, a mais nova, condenada pela paralisia à pequenez eterna e à língua de bebé era coisa de santo, pensava. Ela não sabia que ele andava a investigar os milagres. Não queria ser padre nem santo, queria saber como se faziam os milagres. Precisava apenas de um; que o dòminus vobìscum curasse de vez a pequena Laura.

Sem comentários: