sábado, 14 de fevereiro de 2009

Darwin(2)

Li inúmeros artigos nacionais e estrangeiros sobre Darwin nestes últimos dias e são muitos os que referem a guerra cultural entre evolucionistas e criacionistas. Pergunto-me se a grande projecção das comemorações teria sido a mesma sem essa polémica. Demonizado por uns por pôr em causa a existência de Deus e invocado por outros para rejeitar Deus, ele vai servindo mais como publicista do que como cientista.
As ideias, para quem perde algum tempo a analisá-las, levam ao questionamento daquilo que temos por verdades aceites e interiorizadas, mas não necessariamente à sua rejeição. Por vezes endurecem convicções e conduzem a fundamentalismos, outras vezes levam a adaptações dessas verdades para que continuem a fazer sentido. No decorrer da história os avanços na ciência foram dando origem a adaptações das interpretações religiosas dos textos sagrados ao novo conhecimento. A selecção natural, que refinou e popularizou a teoria da evolução ao explicar como ela funcionava, veio pôr em causa as origens do homem segundo a perspectiva bíblica, mas enquanto para uns a evolução elimina Deus, outros vêm nela a forma de Deus concretizar os seus objectivos. Quando em miúda comecei a questionar algumas coisas que vinham na Bíblia, como a idade da Terra e do homem, que a ciência contradizia, os padres disseram-me que a Bíblia não deveria ser interpretada literalmente, mas sim como um poema, com as suas metáforas e significados misteriosos escondidos entre linhas. Não havia contradição entre a verdade da Bíblia e a ciência porque a ciência era uma criação de Deus que permitiria ao homem chegar à compreensão dos desígnios divinos. Não fui por isso exposta ao fundamentalismo religioso que pretende eliminar a teoria da evolução, enterrar Darwin no esquecimento e substituir a história da humanidade pelo relato literal da Bíblia. Fui exposta a outras contradições e essas sim levaram-me a rejeitar a religião e a ideia de Deus. Nunca se tratou de um debate interior entre religião e ciência e penso que para a maioria das pessoas também não o é. Apenas uma minoria tem conhecimentos avançados de teologia e ciência para poder discutir à vontade coisas dessa natureza. A maioria encontrará justificações para aquilo em que acredita ou não, pela observação do que os rodeia e pelo que os afecta directamente. Em última instância, a tradição e a tendência para nos agruparmos em rebanho sob o comando de um pastor determinam muitas das escolhas que fazemos.
Entendo a necessidade de se combaterem os fundamentalismos e o culto da ignorância praticados por aqueles que nos querem sequestrar numa visão a preto e branco do mundo, mas ver um cientista como Richard Dawkins tão empenhado em apresentar a ciência como um substituto da religião, parece-me uma coisa muito religiosa. O botão vermelho destacado no seu site, “Donate to RDFRS” justapõe-se na minha mente com a caixa de esmolas das igrejas. O seu site está cheio de gente que, tendo eliminado Deus da equação, parece procurar lá um novo sentido para as suas vidas, gente para quem qualquer palavra debitada por Dawkins, ou pelos seus colaboradores, parece conter sempre uma verdade definitiva e inquestionável. Vejo-o emergir do meio deles como um pastor da ciência, emoldurado num fundo decorado com uma fotografia gigante de Darwin, com o seu quê de divino naquelas barbas fenomenais. Se ele for bem sucedido, a santificação guardianista de Darwin talvez não pareça tão irónica no futuro.

1 comentário:

candida disse...

a minha política:a ciencia é social, a religião individual.