terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

cubículo

Reunião com a directora de turma do meu filho mais novo, uma hora inconveniente porque é a hora de fazer o almoço. Sentámo-nos dentro do cubículo onde se fazem as reuniões com os encarregados de educação, ela fala e eu escuto; o mau comportamento da turma, da falta de respeito, de maneiras, de atenção, e do excesso de mimo e negligência parental e de todos ao males juvenis do nosso tempo. Calculo mentalmente o tempo (não quero ofendê-la olhando para o relógio), já deve ter passado quase uma hora e o almoço dos miúdos por fazer; não faz mal, compro uma pizza no caminho de volta, mas agora tenho mesmo de ir até porque está outra mãe lá fora, à espera, possivelmente preocupada com o almoço. Encontro coragem para a interromper:
- E o meu filho? Também tem mau comportamento?
- Não! Ele é muito caladinho!
Entrega-me o relatório das notas para assinar, dois beijinhos e até à próxima.
A minha saída cruza-se com a entrada da outra encarregada de educação. Enquanto enfio o casaco, o cachecol e as luvas e a porta ainda não se fechou, ouço-a dizer à outra mãe.
- Esta turma continua insuportável. Portam-se muito mal.
Chove cá fora e não trouxe guarda-chuva. Uma corrida até ao carro, cachecol a fazer de hijab, quase mo leva o vento empurrando-me contra os carros que aguardam meninos esfomeados, estacionados em segunda fila à porta da escola, bloqueando apressados, atrasando almoços. Contente por ter um almoço para dar aos filhos, por ter escapado do cubículo do desespero. O dia vai a meio, o motor ronca por baixo da chuva; um cão amarelo levanta uma pata e urina nos muros da escola.

4 comentários:

Helena disse...

Mais valia fazer uma reunião com os pais todos de uma vez...

Todas as turmas dos meus filhos se portam mal (será que descubro aqui uma tendência?...) (Acho que não. É só no secundário; nas escolas primárias, Montessori e Jenaplan, os alunos trabalhavam felizes e contentes).
O que mais me surpreende é que os professores protegem os filhos dos próprios pais - "são irrequietos", respondem eles aos pais que exigem mais disciplina, regras e castigos, "mas são boa gente - não se preocupem, nós cá nos arranjamos."

Cristina Gomes da Silva disse...

Quase apetece dizer que o cão é que sabe...

Maria N. disse...

E fazem Helena, mas esta era uma reunião individual para entrega dos boletins das notas e para discutir assuntos relacionados com cada aluno. Eu não posso deixar de pensar no desespero, que deve ser muito, para uma professora usar o cubículo para desabafar com os pais que aparecem e se interessam. Normalmente não são os filhos desses que causam grandes problemas, mas é preciso que alguém escute, quanto mais não seja para diminuir o sentimento de solidão que se sente nessa batalha diária.

Não sei se conhece bem as escolas públicas de hoje em Portugal. São poucos os pais que pedem mais disciplina para os seus filhos. Pedir para os filhos dos outros, sim, para os próprios não.

Cristina,
É todo um sistema que está muito, mas muito, doente. Tenho de trabalhar bastante com os meus filhos em casa, porque na escola não aprendem quase nada. Quem me dera poder resolver todos esses problemas.

CCF disse...

Os miúdos estão certamente diferentes e não valorizam a escola como dantes; os professores estão certamente diferentes e não se valorizam a si próprios como antes...e deste ciclo só é possível sair pela esperança, pela inovação, pela vontade de fazer a diferença.
~CC~