quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

antifascista

Sou como o José Sócrates, não tenho nada de vida ou nada na vida. Nem sequer sei se tenho vida.
Nunca me interessei por uma carreira política. À minha volta, e desde muito nova, sempre me fizeram sentir que o passado antifascista era um dado obrigatório no Curriculum Vitae de quem quisesse ir mais além da colagem de cartazes, ou das pinturas estilo soviético, nas paredes. Vitae da vida que não tenho.

Em criança, num dia aborrecido em que eu e a minha irmã mais velha estávamos de castigo, fechadas em casa pelo regime, pusemo-nos à janela a cuspir para a rua e acertamos na careca dum polícia à paisana. Assustou-nos quando se pôs a subir as escadas e a barafustar com a minha mãe. Ela negou tudo; que não senhor polícia, as minhas filhas não cospem no chão quanto mais da janela, que isto é uma casa de respeito e temente a deus. Também li um livro proibido que estava fechado a sete chaves na papeleira do meu pai. Chamava-se Tentação e deu-me muitos sonhos eróticos.
Se eu chegasse a presidente da junta não poderia incluir isto na minha biografia. A cuspidela e o Tentação não contam como luta antifascista. Imagina, o povo da aldeia no café da Prazeres a ler a minha biografia do nada e o espertinho lá do canto, que tem o nono ano incompleto, a dizer "Foda-se, então esta gaja era antifascista?".

6 comentários:

Anónimo disse...

:D

cláudia (sem login)

alex disse...

:D

ainda assim, uma cuspidela na careca de um polícia, fica sempre bem num currículo.

Maria N. disse...

:D
possívelmente sim, alex, nessa altura os polícias metiam muito medo

candida disse...

nesse contexto, o vocábulo mais adequado seria, a meu ver, escarradela, muito mais suja e apropriada

Isabela disse...

qie belo curriculum!

Maria N. disse...

lol é verdade!