segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

abraço

Borges escreveu que existem três temas que guiam a nossa criatividade. Tenho andado a pensar sobre isso e se também eu tenho três temas. Chego à conclusão que um deles só pode ser a infância, como aliás é de fácil identificação para quem lê este blogue.

Tento orientar-me pela minha memória, ligar imagens - por vezes apenas alguns frames fora de sequência - a sons, palavras, gestos, sensações, para a partir daí construir a minha história. A cronologia nem sempre é rigorosa; uma cena mais antiga pode adquirir características de outra mais recente, uma interpretação influenciada por factos que aprendi posteriormente. Quando falo da minha infância tento fazê-lo como o teria feito em criança (talvez pela necessidade de tocar essa pequena pessoa, que parece existir fora de mim, e de me ligar a ela); tarefa muito difícil, talvez impossível porque eu não tinha palavras suficientes para escrever essas histórias e não sabia então da importância delas na minha construção; não se me revelavam com o mesmo sentido que hoje têm. Ficaram assim arquivadas, suspensas, aguardando que uma palavra se ligasse a outra para que o puzzle de frames dispersas se resolvesse e revelasse uma mensagem; como se tivesse andado a deixar clips de imagem e de som num servidor virtual, que se corromperam com o tempo, para aquela que sou hoje as recuperasse, reconstruísse, e através delas viajasse no tempo rumo ao meu auto conhecimento.
Há episódios que estou sempre a reconstruir interiormente. Nunca os escrevi porque sempre que o tentei fazer sentia-me como quando mordemos um lábio em ferida, doloroso, fazendo-o sangrar. Abandonava-o dos dedos, colocando-o de volta no armário de arquivo, brincando com ele apenas na dimensão interior.

Um desses episódios aconteceu quando me imolei no fogão da cozinha. Uma menina com duas tranças talvez (penso que tinha tranças nessa altura), quatro ou cinco anos, empoleirada numa cadeira, com os cotovelos apoiados na chapa do fogão e mãos segurando uma cabeça, cujos olhos espreitavam para dentro da cafeteira com leite, assim rodeada pelos meus braços. Esperava que o leite fervesse e subisse para que pudesse interromper a erupção com o gesto de desligar a boca, evitando assim que o pequeno-almoço se perdesse e sujasse o fogão. O vestido de fazenda grossa azul com botões forrados a veludo, começou a arder. Da boca, o lume invadiu as mangas propagando-se pelos braços em direcção às axilas. Estou a gritar, com os braços abertos, intuitivamente afastados do corpo, e vejo a minha mãe meia vestida, meia despida, entrar a correr na copa, rosto deformado pela aflição. Ajoelhou-se à minha frente agarrando o fogo, primeiro com as mãos e de seguida com o seu corpo num abraço todo envolvente que em segundos extinguiu as chamas. Tremia comigo em cinzas colada aos seus seios nus.

A memória acaba aqui.

Este episódio é uma lembrança recorrente e sempre me intrigou que a memória parasse no abraço da minha mãe. Acho que o quis prolongar para sempre. Quis continuar presa nos seus braços porque na verdade, esse é o único abraço que me lembro de ter recebido da minha mãe. Um dia ela abraçou-me e eu quase tive de morrer por esse abraço. Não me lembro da dor, mas lembro-me do cheiro do desodorizante nas suas axilas.

(agora tenho de parar por aqui)

4 comentários:

bell disse...

Muito forte esta recordação. Impressionou-me bastante. Talvez por a ligar a vivências minhas e sentimentos passados. A escrita é assim, toca mais ou menos consoante as recordações do leitor.

CCF disse...

Também me tocou muito, mas já estou habituada a que isso me aconteça com os teus textos. A infÂncia é o nosso espelho eterno.
Abraço,
~CC~

alex disse...

tarefa árdua e dolorosa, esta de reconstruir e revolver memórias de infância. sei-o por experiência própria, porque o desejo e o evito.

(também vou - por agora - parar por aqui)

um abraço [virtual]

CNS disse...

As memória constroem-nos ao mesmo tempo que a vamos tentando construir ao sabor do cinzel dos nossos medos.