quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

maria antonieta

Lembro-me da rua mas não do nome. Havia uma loja de autómatos. Máquinas espantosas, artisticamente decoradas, com engrenagens que se accionavam para executarem uma série de movimentos, ritmados por uma música que saía de qualquer orifício invisível. Nessa rua antiga de Paris morava a tia Hélène e era lá que iria ficar um dia e uma noite, para dar descanso à outra tia, cansada de me levar a teatros, museus, exposições, concertos, monumentos, e outros locais de interesse. Eu era a sua boneca que era preciso ensinar, educar, cultivar, mas agora precisava de algum tempo para si.

A tia Hélène era muito pequena e muito magra. Poderia facilmente pegar nela ao colo – não era mais que uma criança como tantas vezes o são os velhos – mas era frenética. Sempre em movimento pela noite parisiense, mão dada com o seu gigolô, dançando pelas casas nocturnas de Paris, não estava interessada em reservar-me para os panteões da cultura francesa. Dormimos e à tardinha acordou-me, dizendo-me que eram horas de nos prepararmos para a noite, uma tarefa longa cheia de cumplicidades femininas.

A banheira da tia-avó, que era só meia banheira e onde cabia apenas sentada, estava quase cheia. Ela não tinha duche em casa. Na verdade não tinha muitas coisas, mas tinha um batalhão de cremes, loções e perfumes, para além de um broche antigo que tinha pertencido a alguém da corte de Maria Antonieta. Não estranhei que ficasse comigo enquanto me despia e entrava no banho. Eu era a sua boneca que era preciso vestir, pentear, perfumar, maquilhar. Ajudou-me a lavar o cabelo e as costas, escolheu o verniz para as unhas, a sombra para os olhos, o batom para os lábios. O nevoeiro adocicado pelo cheiro dos perfumes que ela experimentara nos meus pulsos, no meu pescoço, nos meus cotovelos, embaciava o espelho antigo, uma relíquia da sua avó, reflectindo-nos como pinturas de Degas. Eu era uma pintura de Degas.

Apanhamos o metro para Anvers. Surpreendeu-me não termos saído e entrado em várias composições, como fazia com a outra tia que via em cada cara menos europeia e mais nervosa um terrorista da OLP, sobretudo se transportasse uma mala, saindo de uma composição e esperando pela próxima para não explodir junto com a bomba.

Passeámos por Montmartre, recebendo piropos da esquerda e da direita, aos quais a tia Hélène respondia sempre de forma educada mas de passagem, para que ninguém se colasse a nós. Mas um rapaz colou-se a nós, seguindo-nos por todo o lado, incomodando-nos com as observações e perguntas que me dirigia – onde moras, o número de telefone, queres casar comigo, ah je ne serais plus le même e outras coisas assim, que soam tão bem em francês excepto quando nos são dirigidas insistentemente por alguém que não nos atrai. Tentávamos livrarmo-nos dele educadamente, mas as nossas boas maneiras apenas o encorajavam. O rosto da tia Hélène encolhia.

Descíamos as escadas do Sacré Cœur, cheias de gente muito jovem, da minha idade, descontraída. Queria juntar-me a eles e a tia Hélène, adivinhando-me, parou junto de um grupo que cantava músicas de George Brassens. Tirou um lenço de linho branco da carteira, estendeu-o no chão das escadas e sentou-se nele. Imitei-a e o rapaz imitou-me. Sentados os três lado a lado, a tia Hélène pediu-lhe mais uma vez que nos deixasse em paz. Ele não deixou. Desesperada, ela deu um salto, guardou o lenço de linho e disse que eram horas de irmos embora. Levantei-me e ele levantou-se preparando-se para nos seguir. A tia Hélène gritou “Corre” e precipitou-se pelas escadas.

Desci as escadas do Sacré Cœur a correr atrás da tia Hélène, com medo que ela caísse, «tante Hélène, tante Hélène» e o marroquino atrás de mim, «Mademoiselle, mademoiselle» e a tia Hélène «Táxi, táxi»; eu corria e tropeçava no riso porque julgara que era só nos filmes que se gritava pelo táxi. Pensava na banheira que era só meia banheira e onde cabia apenas sentada. Ela não tinha duche em casa. Na verdade, não tinha muitas coisas, mas tinha um batalhão de cremes, loções e perfumes, para além de um broche antigo que tinha pertencido a alguém da corte de Maria Antonieta.

Na tarde seguinte o meu tio foi buscar-me a casa da tia Hélène. Levou-me a Versailles, comprou-me os livros com a história do palácio, falou-me de reis e rainhas, de pão e de bolos, de factos e de mitos; e eu era a Maria Antonieta, faces empoeiradas com o rouge da tia-avó, espreitando os espelhos que me reflectiam sem cabeça.

2 comentários:

blue disse...

ah, Maria, quel beaux texte!

:)

Maria N. disse...

Merci, Cláudia :)