sábado, 31 de janeiro de 2009

freepotatoes

A Emília era uma rapariga muito morena, olhos e cabelos pretos, rosto bonito. Usava um elástico no cabelo igual ao elástico que usávamos para brincar no recreio, o mesmo que as nossas mães compravam para aplicar na roupa. Era filha de agricultores que cultivavam um terreno no lado de fora do burgo, onde hoje se erguem vivendas caríssimas, com piscina, vedações altas e tabuletas «cuidado com o cão» penduradas nos muros.

Na sala de aulas havia três filas de carteiras, cada uma ocupada por duas meninas de bata branca, de frente para a porta e para os quadros pretos que a ladeavam, com os retratos de Salazar e de Américo Tomaz suspensos acima deles, crucifixo pendurado entre os dois por cima da porta. Não sei quem baptizou as filas; uma era o céu, outra o purgatório e a terceira o inferno. A Emília estava na fila do inferno e eu na do purgatório, sentada ao lado da Anabela que estava sempre a tocar piano no tampo da carteira. Ela dava-me caramelos espanhóis e eu fazia-lhe as contas na lousa sem a professora ver.
Eram ambas fracas alunas mas, ao contrário da Emília que vivia numa espécie de palheiro, a Anabela vivia num palacete e essa diferença explicava o motivo de uma estar prestes a passar o ano e a outra não. Para mim, que não vivia num palacete nem num palheiro, a condição económica de uma tornava a da outra obscena porque a diferença era demasiado grande. Nas teias de influências onde uns se moviam tão bem, como aranhas enrolando fios que armazenavam na despensa, outras preparavam-se para serem enroladas. A mãe da Emília tentou subornar a professora. Com batatas. Era isso que ela tinha, montes de batatas.

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