domingo, 11 de janeiro de 2009

fita verde

é tarde quando atravessas a praça da oliveira
é talvez outono, ou mesmo inverno e
atravessas o ar gelado de braços cruzados sobre os livros
os seios ainda pequenos
a passada rápida ao largo do vão de escada que cheira a urina
antes dos degraus de pedra gasta, antes da secretária de empréstimo
antes do vidro que é porta
antes da biblioteca.

é uma rapariga essa que atravessa o amplo o sobrado
e que se acocora junto das estantes
junto ao outro sobrado que nunca pisará
o-dos-livros-para-adultos
(o dos livros que lê em casa ou que a avó lhe compra na casa havanesa)
a luz é esparsa, absorvem-na os tectos de maceira pintados
absorvem-na as poeiras, o cheiro a papel, as encadernações manuseadas
as palavras impressas
interlocutoras e suporte de um anseio desconhecido
conformando o olhar, a voz, o vazio que a levará para longe
e que dali avisto como se fora de uma outra vida.
(...)


Cláudia Santos Silva, no
Blue Molleskin


do cheiro da urina nas escadas

Nos dias seguintes à revolução – não sei o que deu na gente que nunca sujava as mãos no trabalho árduo, físico – um batalhão de médicos, professores, empregados de escritório, advogados e outros ainda, vieram de galochas e vassouras lavar a praça e o claustro sob a biblioteca que cheirava a urina e eu, rapariga de seios ainda inexistentes, pensei que era de galochas e vassoura em punho que se fazia a democracia.

Recomeço. Eu queria dizer médicas, professoras, empregadas de escritório, advogadas e outras ainda. Os masculinos delas, para além de não terem jeito para a vassoura nem vontade de o ter, estavam muito ocupados em reuniões e debates nas sedes dos mil e um partidos que se formaram, enfiados em salas cheias de fumo, outrora imponentes mas agora decadentes, das casas ricas há muito trancadas, despejadas de inquilinos e de ar, que eles agora ocupavam. Por muito que as mulheres lavassem as escadas, o cheiro a urina não desaparecia. Deveriam ter montado guarda aos claustros durante a noite porque era de noite que os bêbados saíam das tascas e dos casebres medievais das prostitutas e, de passagem, se aliviavam no granito escuro no canto escuro da entrada da biblioteca; mas não houve tempo. A democracia da vassoura durou apenas uma semana. O cheiro a urina ainda lá ficou e só desapareceu quando alguém com cargo político se lembrou de reparar que as praças de ambos os lados do claustro eram bonitas. Para dignificar o local, organizaram-se sessões culturais. Lembro-me sobretudo do Carlos Paredes ter tocado na biblioteca e de me ter assustado com a perfeição e a dedicação de uma vida a uma guitarra. Era possível viver-se apenas para uma coisa. Era possível viver para uma guitarra tanto quanto era possível viver para uma vassoura.

e o cheiro dos livros depois delas

Das varandas da biblioteca, olhava para a praça espiando as brincadeiras da geração que substitui a minha na posse da rua. A sardinheira cruzava-a com o peixe a brilhar ao sol no tabuleiro, equilibrado na rodilha sobre a cabeça. Donas de casa sacudiam tapetes e arejavam quartos, sinos redobravam na torre da igreja, polícias fingiam multar os mal estacionados e a Rosinha varria o pedaço de passeio em frente da sua porta. Tudo gente que nunca lera um livro apenas pelo prazer de o ler, de cair num labirinto de palavras e aprender a orientar-se nele; mas, quando o pai do Chico lhe ralhou por andar sempre de nariz enfiado nos livros, dizendo-lhe que tinha o sétimo da rua e o oitavo do pé descalço e que, por isso, sabia coisas que não vinham nos livros, eu percebi que havia duas bibliotecas. Cada pessoa era um livro que eu aprenderia a ler.

Dentro da biblioteca, o cheiro era outro mundo que era porta maior que os outros portais que nos ligavam ao mundo exterior – a rádio e a televisão a preto e branco, pobres de meter dó. A minha secção – a das raparigas ainda de seios pequenos – tinha as estantes abertas, grávidas de livros com fita adesiva verde colada na lombada; livros da Condessa de Ségur, da Louisa Mary Alcott, da Jane Austen, das irmãs Brontë, de Dickens e outros. O João, que estava sempre lá, sentado numa das secretárias junto das varandas, tirando apontamentos de livros com coisas mecânicas, desenhos de máquinas, de roldanas, de motores e de cronómetros, era mais velho que eu e levava livros com fita adesiva vermelha para casa. Foi na casa dele, que passou a servir de minha proxy para o sobrado proibido da biblioteca, que comecei a ler os livros dos adultos, livros que desfizeram todos os nós atados com fita verde na minha cabeça, abrindo-me um anseio até aí desconhecido.
Não haveria retorno. Os livros do meu sobrado já não me nutriam.

6 comentários:

blue disse...

ah, Amiga, que sorte essa a de ter a biblioteca como sala, ali ao lado, à mão de semear!
e que sorte essa, a de viver no centro do burgo, palco de tantas histórias.

:)

(que inveja a minha, vê tu só...)

Maria N. disse...

Muitas histórias, mas tu também tens muitas para contar. Sabes de que tenho mais pena? De ter um diário e só escrever palermices nessa altura. Há muitas coisas que esqueci, de outras tenho apenas fragmentos.
Engraçado como uma frase, um verso, uma imagem, abrem caminhos para as catacumbas da memória; como me revejo na rapariga que atravessa a praça, abraçada aos livros – a coisa mais preciosa que eu tinha.

io disse...

ah, que bem que se escreve por aqui. que bem que escreve, Maria.

Helena disse...

Lembro-me de um domingo em que todos foram trabalhar. Nem me lembro do nome ("trabalho solidário"? "trabalhar para a revolução"?).
Acho que ninguém sabia o que era para fazer, concretamente.
Lembro-me, porque ao fim de semana íamos para a aldeia da minha avó, e nesse fim de semana fomos na mesma, mas com má consciência...

Anónimo disse...

Penso que era um dia de trabalho para o país! No tempo do camarada Vasco!

Maria N. disse...

Obrigada Io :)

Helena, Anónimo,
Foi de facto o tal dia de trabalho do Vasco Gonçalves e foi num domingo. As pessoas andavam muito entusiasmadas com aquilo e durante a semana não se falava noutra coisa, que era preciso trabalhar para o bem do país etc e tal. Hoje não se pode varrer ou lavar a praça voluntariamente, nem sequer o passeio em frente da porta. Vejam só as voltas que se deram.