sábado, 31 de janeiro de 2009

diminutivo

Na ala esquerda da igreja havia pernas, pés, mãos, braços e outras ofertas dos fiéis para saldar dívidas contraídas pela cura das partes aflitas do corpo esculpidas na cera; partes doentes e dolorosas a precisar de alívio amontoavam-se pela parede, umas sobre as outras. O responsável pelas curas jazia numa câmara envidraçada. Os devotos beijavam a ponta dos dedos que depois esfregavam no vidro; alguns dispensavam os dedos e imprimiam lá os lábios. O santo muito pequeno, do tamanho de uma criança, tinha pés de boneca enfiados em sapatos de salto alto. Uma das orelhas estava meia devorada e o nariz quase inexistente. Se não estivesse protegido seria digerido pelos beijos do amor de conveniência.
Assim muito bem-posto, com a mitra enfiada na cabeça, sem mexer um dedo ou uma pestana, salvou a minha irmã da morte dada como certa pelos médicos, quando ela era bebé. Assim dizia a minha mãe que tratava sempre os santos pelo diminutivo, como se eles fossem todos filhos dela.

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