sábado, 31 de janeiro de 2009

freepotatoes

A Emília era uma rapariga muito morena, olhos e cabelos pretos, rosto bonito. Usava um elástico no cabelo igual ao elástico que usávamos para brincar no recreio, o mesmo que as nossas mães compravam para aplicar na roupa. Era filha de agricultores que cultivavam um terreno no lado de fora do burgo, onde hoje se erguem vivendas caríssimas, com piscina, vedações altas e tabuletas «cuidado com o cão» penduradas nos muros.

Na sala de aulas havia três filas de carteiras, cada uma ocupada por duas meninas de bata branca, de frente para a porta e para os quadros pretos que a ladeavam, com os retratos de Salazar e de Américo Tomaz suspensos acima deles, crucifixo pendurado entre os dois por cima da porta. Não sei quem baptizou as filas; uma era o céu, outra o purgatório e a terceira o inferno. A Emília estava na fila do inferno e eu na do purgatório, sentada ao lado da Anabela que estava sempre a tocar piano no tampo da carteira. Ela dava-me caramelos espanhóis e eu fazia-lhe as contas na lousa sem a professora ver.
Eram ambas fracas alunas mas, ao contrário da Emília que vivia numa espécie de palheiro, a Anabela vivia num palacete e essa diferença explicava o motivo de uma estar prestes a passar o ano e a outra não. Para mim, que não vivia num palacete nem num palheiro, a condição económica de uma tornava a da outra obscena porque a diferença era demasiado grande. Nas teias de influências onde uns se moviam tão bem, como aranhas enrolando fios que armazenavam na despensa, outras preparavam-se para serem enroladas. A mãe da Emília tentou subornar a professora. Com batatas. Era isso que ela tinha, montes de batatas.

diminutivo

Na ala esquerda da igreja havia pernas, pés, mãos, braços e outras ofertas dos fiéis para saldar dívidas contraídas pela cura das partes aflitas do corpo esculpidas na cera; partes doentes e dolorosas a precisar de alívio amontoavam-se pela parede, umas sobre as outras. O responsável pelas curas jazia numa câmara envidraçada. Os devotos beijavam a ponta dos dedos que depois esfregavam no vidro; alguns dispensavam os dedos e imprimiam lá os lábios. O santo muito pequeno, do tamanho de uma criança, tinha pés de boneca enfiados em sapatos de salto alto. Uma das orelhas estava meia devorada e o nariz quase inexistente. Se não estivesse protegido seria digerido pelos beijos do amor de conveniência.
Assim muito bem-posto, com a mitra enfiada na cabeça, sem mexer um dedo ou uma pestana, salvou a minha irmã da morte dada como certa pelos médicos, quando ela era bebé. Assim dizia a minha mãe que tratava sempre os santos pelo diminutivo, como se eles fossem todos filhos dela.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Godard e os Junior Boys

a loucura e o rir-se sozinho

Estava sempre só na mesa do canto do café. Fumava compulsivamente; a mão que segurava o cigarro segurava também o rosto; mão em forma de concha encostada no queixo. Ria-se, abanando os ombros e sem entender que o riso sozinho, sem contexto perceptível, era estranho para os outros. Estranho e grosseiro porque nunca partilhava o que o fazia rir, roubando assim algumas gargalhadas ao café. Ou talvez não. Era esquizofrénico, maluquinho como dizia a costureira – “coitado, além de maluquinho é coxo” – o que, vindo dela, não era menos estranho. Ela não sabia que a sua alcunha era Costureira Maluca.
Na rua também se ria. Percorria quilómetros a pé, numa espécie de dança do tacão do sapato do pé esquerdo com o tacão gigantesco do sapato do pé direito, essa perna mais curta que a outra. Dançava e ria.
O riso sozinho não exige esquizofrenia. Sei-o porque também me rio sozinha e não sofro dessa maleita. Sofro de outra qualquer espécie de loucura.
Estava a rir-me sozinha na fila do minimercado. A senhora que estava à minha frente, virou-se para mim e perguntou-me se eu estava bem, um copo de água com açúcar, talvez, está um bocadinho pálida. Reparei que a conhecia; já a tinha visto lá, no minimercado da dona Conceição. Lembrei-me que queria pagar as compras com o cartão de utente e das tentativas desesperadas da dona Conceição para que o cartão fosse aceite pela maquineta do multibanco. Soltei uma gargalhada e a cara dela sem dizer dizia – “Coitada, além de pálida é maluquinha”.

Talvez me desse jeito um sapato com um tacão gigantesco.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

desemprego

Nem sempre vejo os noticiários mas ultimamente, sempre que o faço, há notícias de empresas que despedem ou ameaçam despedir trabalhadores, por vezes aos milhares. Parece estar tudo a desmoronar-se, como os azulejos do prédio da minha irmã que vão caindo um a um, pedaço a pedaço, ameaçando quem passa – tu és o próximo, tu és o próximo, o mundo vai cair na tua cabeça, mais as dívidas da casa e do carro para pagar e a viagem de sonho ao Brasil. Tenho visões como cenas de filmes de ficção científica, sobre um futuro catastrófico de cidades em ruínas, e muita gente barbuda e esfarrapada a lutar por uma cenoura, uma côdea de pão; a estátua da liberdade para comprar enterrada na areia ou submersa no mar. E nunca ouvi falar tanto da vontade de ter uma horta, de como os refúgios bucólicos começam a parecer mais atractivos como produtores de coisas para a mesa, do que como tardes soalheiras estendidas preguiçosamente no jardim nos intervalos da vida atarefada da cidade. A vida atarefada da cidade. É uma piada, penso. Atarefada na busca de emprego ou enterrada em empregos onde se tenta parecer sempre muito ocupada, desfiando os quilómetros de fibra óptica que nos transportam em pacotes de um lado para o outro, pelo Twitter, o Messenger, os blogues, o Facebook.
Para onde vai toda esta gente?

O meu vizinho da quinta de baixo é músico. De dia anda no tractor e à noite toca piano. Gosto dele. Partilhamos o gosto pelas coisas que entram e saem do chão, a música, a História e o vendedor do Círculo de Leitores.

afinal não é o super homem


via

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

it’s all about the speech

Um discurso é só um discurso mas, confesso, fiquei um pouco decepcionada. Mas esperava o quê? perguntava aos meus botões enquanto brunia as calças do meu filho e me lembrava que tinha faltado à consulta no dentista para ouvir o Obama. Uma frase memorável, saída do coração directamente para o nosso coração? Qualquer coisa como “I have a dream”, talvez? Uma frase curta e simples que diz tudo. Penso “I have a dream” e de imediato me lembro do resto do discurso de Martin Luther King. É memorável. O discurso de Obama não o é. Não me fez pele de galinha.
A expectativa não tem razão lógica de ser. Em todo a parte li ou ouvi “It’s all about the speech!”, como se o seu discurso devesse conter uma verdade que resolveria todos os problemas do mundo. Talvez este discurso tenha sido propositadamente isento de grandes frases, algo abstrato e com recurso a metáforas cliché. Não é má ideia começar por baixar expectativas irrealistas, desfazendo um pouco a aura de Messias que se criou à volta da sua figura.

domingo, 18 de janeiro de 2009

xbox


Os jogos de vídeo oferecem-nos a possibilidade de explorar sentimentos de violência e vingança sem magoar ninguém de carne e osso. Costumava achar que isso era uma coisa dos homens, até me sentar aos comandos de uma Xbox.
Os jogos de vídeo não deveriam levantar-nos dilemas morais. Talvez estejamos geneticamente programados para destruir coisas; a guerra é inevitável e é mais fácil erguer paredes que abrir portas e tudo se resume à questão “matar ou morrer”, não é? Não é? E se assim é na vida real porque haveria de ser diferente na virtual? Não deveríamos pensar que estamos a matar toda a gente que se atravessa no nosso caminho, mas eu penso e sinto-me culpada pelos mortos que vou deixando para trás nesse mundo de faz-de-conta. Mas, enquanto me debatia com os meus dilemas morais, ali estava eu agarrada à XBox do meu amigo, somando pontos como se matar virtualmente fosse a minha segunda língua.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

a menina da fotografia e um cachimbo

"Pensemos um pouco no dístico: "Provavelmente, Deus não existe. Agora não te preocupes mais e goza a vida." A primeira frase é que conta, a segunda é como a menina ao lado do Dawkins: só aparece para a fotografia." - Pedro Picoito no Cachimbo de Magritte.

A menina na fotografia foi a pessoa que teve a ideia da campanha e lhe deu início. Quem está lá só para a fotografia é o menino (Dawkins) que se limitou a apanhar a boleia do golpe de génio da menina e a contribuir financeira e generosamente para ela.

Ariane Sherine (sim, a menina tem nome, é jornalista, escreve no The Guardian e para a televisão), ao ver-se confrontada com publicidade religiosa no autocarro que usava, uma das quais incluía um link para um site onde se ameaçava com a condenação e o inferno todos aqueles que não aderissem à mensagem de Deus, achou que também ela tinha alguma coisa a dizer e deu assim início à campanha. A frase "Provavelmente Deus não existe. Deixe de se preocupar e goze a sua vida" é inofensiva e reflecte o pensamento de muita gente, farta de aturar publicidade religiosa apocalíptica e ameaçadora com a intenção de criar sentimentos de culpa e medo nas pessoas.

A informação está toda aqui.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009


via

no fundo

não há muita gente interessada em aprender alguma coisa. Se a realidade não serve e ameaça as ideias que construímos ao longo dos anos, é fácil criar uma nova, uma que se adapte àquilo que defendemos para que possamos justificar a nossa teimosia em optar pelos oito ou os oitenta (e é tão fácil hoje, com a quantidade de ferramentas disponíveis qualquer um inventa uma história e as respectivas imagens para a acompanhar). Já não são ideias, são ficções. O rigor não interessa porque a informação e o debate já quase não servem para descobrir e entender a realidade; é sobre quem consegue gritar mais alto e por mais tempo, submergindo assim os outros; é sobre respostas simplistas, a venda de mentiras como verdades, irresponsabilidade e revisões manipuladoras da história, passada e presente, propagação de falsidades que se inventam ou copiam de outro lado sem qualquer preocupação com as fontes. Quem entra neste jogo de manipulação, sobretudo se tem grande audiência, estabelece os parâmetros do debate. A partir daí, já não interessa muito o que se diz nem quem o diz. Importa é que se continue dizendo. Importa é que se continue a estupidificar porque as grandes causas, em larga medida, vivem tanto das emoções como da estupidez.

(o pessimismo passa-me já, foi só um desabafo)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

duas horas em Gaza

O Miguel Portas passou duas horas em Gaza e veio de lá surpreendido.

«Confessando a sua "surpresa" pela forma como o povo palestiniano enfrenta a "tragédia"»
«admitindo ter ficado surpreendido com a "severidade do olhar das mulheres".»
«Quanto ao ambiente nas ruas, o eurodeputado português confessou ter ficado surpreendido pela forma como o povo sai para a rua durante o período que devia ser de tréguas.

domingo, 11 de janeiro de 2009


desenho a lápis & Photoshop

fita verde

é tarde quando atravessas a praça da oliveira
é talvez outono, ou mesmo inverno e
atravessas o ar gelado de braços cruzados sobre os livros
os seios ainda pequenos
a passada rápida ao largo do vão de escada que cheira a urina
antes dos degraus de pedra gasta, antes da secretária de empréstimo
antes do vidro que é porta
antes da biblioteca.

é uma rapariga essa que atravessa o amplo o sobrado
e que se acocora junto das estantes
junto ao outro sobrado que nunca pisará
o-dos-livros-para-adultos
(o dos livros que lê em casa ou que a avó lhe compra na casa havanesa)
a luz é esparsa, absorvem-na os tectos de maceira pintados
absorvem-na as poeiras, o cheiro a papel, as encadernações manuseadas
as palavras impressas
interlocutoras e suporte de um anseio desconhecido
conformando o olhar, a voz, o vazio que a levará para longe
e que dali avisto como se fora de uma outra vida.
(...)


Cláudia Santos Silva, no
Blue Molleskin


do cheiro da urina nas escadas

Nos dias seguintes à revolução – não sei o que deu na gente que nunca sujava as mãos no trabalho árduo, físico – um batalhão de médicos, professores, empregados de escritório, advogados e outros ainda, vieram de galochas e vassouras lavar a praça e o claustro sob a biblioteca que cheirava a urina e eu, rapariga de seios ainda inexistentes, pensei que era de galochas e vassoura em punho que se fazia a democracia.

Recomeço. Eu queria dizer médicas, professoras, empregadas de escritório, advogadas e outras ainda. Os masculinos delas, para além de não terem jeito para a vassoura nem vontade de o ter, estavam muito ocupados em reuniões e debates nas sedes dos mil e um partidos que se formaram, enfiados em salas cheias de fumo, outrora imponentes mas agora decadentes, das casas ricas há muito trancadas, despejadas de inquilinos e de ar, que eles agora ocupavam. Por muito que as mulheres lavassem as escadas, o cheiro a urina não desaparecia. Deveriam ter montado guarda aos claustros durante a noite porque era de noite que os bêbados saíam das tascas e dos casebres medievais das prostitutas e, de passagem, se aliviavam no granito escuro no canto escuro da entrada da biblioteca; mas não houve tempo. A democracia da vassoura durou apenas uma semana. O cheiro a urina ainda lá ficou e só desapareceu quando alguém com cargo político se lembrou de reparar que as praças de ambos os lados do claustro eram bonitas. Para dignificar o local, organizaram-se sessões culturais. Lembro-me sobretudo do Carlos Paredes ter tocado na biblioteca e de me ter assustado com a perfeição e a dedicação de uma vida a uma guitarra. Era possível viver-se apenas para uma coisa. Era possível viver para uma guitarra tanto quanto era possível viver para uma vassoura.

e o cheiro dos livros depois delas

Das varandas da biblioteca, olhava para a praça espiando as brincadeiras da geração que substitui a minha na posse da rua. A sardinheira cruzava-a com o peixe a brilhar ao sol no tabuleiro, equilibrado na rodilha sobre a cabeça. Donas de casa sacudiam tapetes e arejavam quartos, sinos redobravam na torre da igreja, polícias fingiam multar os mal estacionados e a Rosinha varria o pedaço de passeio em frente da sua porta. Tudo gente que nunca lera um livro apenas pelo prazer de o ler, de cair num labirinto de palavras e aprender a orientar-se nele; mas, quando o pai do Chico lhe ralhou por andar sempre de nariz enfiado nos livros, dizendo-lhe que tinha o sétimo da rua e o oitavo do pé descalço e que, por isso, sabia coisas que não vinham nos livros, eu percebi que havia duas bibliotecas. Cada pessoa era um livro que eu aprenderia a ler.

Dentro da biblioteca, o cheiro era outro mundo que era porta maior que os outros portais que nos ligavam ao mundo exterior – a rádio e a televisão a preto e branco, pobres de meter dó. A minha secção – a das raparigas ainda de seios pequenos – tinha as estantes abertas, grávidas de livros com fita adesiva verde colada na lombada; livros da Condessa de Ségur, da Louisa Mary Alcott, da Jane Austen, das irmãs Brontë, de Dickens e outros. O João, que estava sempre lá, sentado numa das secretárias junto das varandas, tirando apontamentos de livros com coisas mecânicas, desenhos de máquinas, de roldanas, de motores e de cronómetros, era mais velho que eu e levava livros com fita adesiva vermelha para casa. Foi na casa dele, que passou a servir de minha proxy para o sobrado proibido da biblioteca, que comecei a ler os livros dos adultos, livros que desfizeram todos os nós atados com fita verde na minha cabeça, abrindo-me um anseio até aí desconhecido.
Não haveria retorno. Os livros do meu sobrado já não me nutriam.

sábado, 10 de janeiro de 2009

esta manhã





Tanque do Berto, meu vizinho, com a água em gelo. O meu catorze anos passeia no jardim; está muito frio mas ele diz que tem calor. Vista parcial do jardim e do campo. Lá muito ao fundo é a casa do Pedro onde ontem as crianças fizeram um boneco de neve.
Está tudo branco e tudo vai desaparecendo lentamente, mas ainda há neve suficiente para continuar as brincadeiras. O Minho verde está todo branco.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Ártemis


Laura Laine, Artemis


O que é que as velas têm a ver com Ártemis? A Bell explica.



Richard Kirk, The Devil's Darning Needle

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

velas

Fui espreitar o sono dos meus filhos, do meu sobrinho, da minha sobrinha e da minha irmã. Espreitei os cães e os gatos e apanhei uma centopeia na casa de banho. As árvores continuam outonais mas menos que ontem e o gelo na erva quebra-se por baixo dos meus pés que arrefecem dentro dos chinelos de quarto. Há qualquer coisa errada em passear de madrugada no jardim do gelo em pijama e chinelos de quarto. Sonâmbula. A casa ainda dorme na quentura do seu interior.

Fui espreitar o bolo de chocolate no forno. A minha sobrinha espetou-lhe um palito mas ainda não estava pronto. A minha irmã, estendida no sofá, lia Espinosa. A ideia do bolo de chocolate foi dela mas não temos velas. Esquecemo-nos das velas.

Fui espreitar o retrato sépia da minha avó. A minha avó adivinhava o futuro. Quando me ajudou a nascer já sabia que eu era menina antes de me ver. Mas as profecias dela para mim falharam todas.

Hoje faço anos e isto pode parecer muito estranho: às vezes tenho de fazer contas de cabeça para saber quantos anos tenho. Esquecer-me das velas talvez tivesse uma razão inconsciente de ser.

(14 de Dezembro 2008)

blogues


Um blogue de um palestiniano que nos conta o que se passa em Gaza, Sameh A. Habeeb. Outro blogue dá-nos os pontos de vista de jovens do Médio Oriente - Middle East Youth.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

State of Siege



Here there is no “I”.
Here Adam remembers the dust of his clay.
(...)
You who stand in the doorway, come in,
Drink Arabic coffee with us
And you will sense that you are men like us
You who stand in the doorways of houses
Come out of our morningtimes,
We shall feel reassured to be
Men like you!
(...)
The siege is a waiting period
Waiting on the tilted ladder in the middle of the storm.
(...)
Our losses: between two and eight martyrs each day.
And ten wounded.
And twenty homes.
And fifty olive trees…
Added to this the structural flaw that
Will arrive at the poem, the play, and the unfinished canvas.
(...)
In the state of siege, time becomes space
Transfixed in its eternity
In the state of siege, space becomes time
That has missed its yesterday and its tomorrow.
(...)
The siege will last in order to convince us we must choose an enslavement that does no harm, in fullest liberty!
(...)
My friends are always preparing a farewell feast for me,
A soothing grave in the shade of oak trees
A marble epitaph of time
And always I anticipate them at the funeral:
Who then has died…who?

Mahmoud Darwish, State of Siege (2003) - poema completo aqui
(autor da Declaração de Independência Palestiniana de 1988)


Afinal, o Estado Civil ainda cá está. Ainda bem.

imagem daqui

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

qualquer coisa


©Adam Hinton (da série Europa de Leste)

Sei onde vão a seguir à fotografia. O sabão na mão, a nudez, a esponja, a sujidade denuncia-o. Vêm de uma qualquer tarefa suja, dura, física. Há qualquer coisa pesada nos ombros. Há qualquer coisa escrava nos rostos.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

de forma sistemática

«De forma sistemática, leio o Da Literatura, o Mar Salgado, a A Terceira Noite, a Natureza do Mal e "vejo" o fworld.» - Pacheco Pereira 

Nesta frase, Pacheco Pereira lembra-me que tem gosto mas lembra-me também que ainda há muito para fazer quando descubro que ele, intelectual com barba e tudo, não lê blogues de mulheres de forma sistemática (o fworld não conta porque é só para ver).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Estado Civil

Deixa-me muita pena o fim do Estado Civil de Pedro Mexia. O ano começa mais pobre. 

Estas pessoas não podem simplesmente desaparecer do meu ecrã. No millieu onde vivo, isolada numa aldeia minhota que gente como o Pedro Mexia não frequenta, não tenho acesso a esta intimidade, ainda que anónima, que nos aproxima muito mais de alguém do que a leitura dispersa em jornais, revistas ou livros. Bem sei, egoísmo de leitora.

maria antonieta

Lembro-me da rua mas não do nome. Havia uma loja de autómatos. Máquinas espantosas, artisticamente decoradas, com engrenagens que se accionavam para executarem uma série de movimentos, ritmados por uma música que saía de qualquer orifício invisível. Nessa rua antiga de Paris morava a tia Hélène e era lá que iria ficar um dia e uma noite, para dar descanso à outra tia, cansada de me levar a teatros, museus, exposições, concertos, monumentos, e outros locais de interesse. Eu era a sua boneca que era preciso ensinar, educar, cultivar, mas agora precisava de algum tempo para si.

A tia Hélène era muito pequena e muito magra. Poderia facilmente pegar nela ao colo – não era mais que uma criança como tantas vezes o são os velhos – mas era frenética. Sempre em movimento pela noite parisiense, mão dada com o seu gigolô, dançando pelas casas nocturnas de Paris, não estava interessada em reservar-me para os panteões da cultura francesa. Dormimos e à tardinha acordou-me, dizendo-me que eram horas de nos prepararmos para a noite, uma tarefa longa cheia de cumplicidades femininas.

A banheira da tia-avó, que era só meia banheira e onde cabia apenas sentada, estava quase cheia. Ela não tinha duche em casa. Na verdade não tinha muitas coisas, mas tinha um batalhão de cremes, loções e perfumes, para além de um broche antigo que tinha pertencido a alguém da corte de Maria Antonieta. Não estranhei que ficasse comigo enquanto me despia e entrava no banho. Eu era a sua boneca que era preciso vestir, pentear, perfumar, maquilhar. Ajudou-me a lavar o cabelo e as costas, escolheu o verniz para as unhas, a sombra para os olhos, o batom para os lábios. O nevoeiro adocicado pelo cheiro dos perfumes que ela experimentara nos meus pulsos, no meu pescoço, nos meus cotovelos, embaciava o espelho antigo, uma relíquia da sua avó, reflectindo-nos como pinturas de Degas. Eu era uma pintura de Degas.

Apanhamos o metro para Anvers. Surpreendeu-me não termos saído e entrado em várias composições, como fazia com a outra tia que via em cada cara menos europeia e mais nervosa um terrorista da OLP, sobretudo se transportasse uma mala, saindo de uma composição e esperando pela próxima para não explodir junto com a bomba.

Passeámos por Montmartre, recebendo piropos da esquerda e da direita, aos quais a tia Hélène respondia sempre de forma educada mas de passagem, para que ninguém se colasse a nós. Mas um rapaz colou-se a nós, seguindo-nos por todo o lado, incomodando-nos com as observações e perguntas que me dirigia – onde moras, o número de telefone, queres casar comigo, ah je ne serais plus le même e outras coisas assim, que soam tão bem em francês excepto quando nos são dirigidas insistentemente por alguém que não nos atrai. Tentávamos livrarmo-nos dele educadamente, mas as nossas boas maneiras apenas o encorajavam. O rosto da tia Hélène encolhia.

Descíamos as escadas do Sacré Cœur, cheias de gente muito jovem, da minha idade, descontraída. Queria juntar-me a eles e a tia Hélène, adivinhando-me, parou junto de um grupo que cantava músicas de George Brassens. Tirou um lenço de linho branco da carteira, estendeu-o no chão das escadas e sentou-se nele. Imitei-a e o rapaz imitou-me. Sentados os três lado a lado, a tia Hélène pediu-lhe mais uma vez que nos deixasse em paz. Ele não deixou. Desesperada, ela deu um salto, guardou o lenço de linho e disse que eram horas de irmos embora. Levantei-me e ele levantou-se preparando-se para nos seguir. A tia Hélène gritou “Corre” e precipitou-se pelas escadas.

Desci as escadas do Sacré Cœur a correr atrás da tia Hélène, com medo que ela caísse, «tante Hélène, tante Hélène» e o marroquino atrás de mim, «Mademoiselle, mademoiselle» e a tia Hélène «Táxi, táxi»; eu corria e tropeçava no riso porque julgara que era só nos filmes que se gritava pelo táxi. Pensava na banheira que era só meia banheira e onde cabia apenas sentada. Ela não tinha duche em casa. Na verdade, não tinha muitas coisas, mas tinha um batalhão de cremes, loções e perfumes, para além de um broche antigo que tinha pertencido a alguém da corte de Maria Antonieta.

Na tarde seguinte o meu tio foi buscar-me a casa da tia Hélène. Levou-me a Versailles, comprou-me os livros com a história do palácio, falou-me de reis e rainhas, de pão e de bolos, de factos e de mitos; e eu era a Maria Antonieta, faces empoeiradas com o rouge da tia-avó, espreitando os espelhos que me reflectiam sem cabeça.

vozes da dissidência (Gaza)

De Ramzy (Gaza)

«Hamas, Take your hands off the people!

(...)Both Israel and the Arab regimes wish they would wake up one day and find all the Palestinians have been thrown into Gaza sea. True to this, Egypt is collaborating with Israel in tightening the siege on Gaza people for no good reason. I think we do know all this and act a blind eye and a deaf ear because the suffering of the Palestinian people also makes good business for some of us. What a shame!! Unlike all now free peoples that have fought to gain their independence, we fight to trade our blood for tremendous amounts of money from countries or groups with interests in the region. Seems like good business? One would say the Palestinian factions need funds to enable themselves to fight. It is true but there is something called higher national interests that must rise above the agendas’ of the money giver. Our higher national interests must be our guide as to how and when to fight. But in our case, the orders to escalate the situation come from above regardless of the fatal consequences on part of the Palestinian innocent people. They say this is honorable Jihad!! Where the honor is in causing the death of hundreds of innocent civilians for nothing in return? We have been doing this “jihad” for the last 60 years. What have we achieved? Didn’t we learn the lesson yet? Won’t we ever change our ways? Or maybe we like the view of our people’s blood streams running before our eyes!!Ever since Hamas went to power the Palestinian people’s living conditions are from bad to worse with every day because it is internationally recognized as a terrorist group and can’t be endorsed as part of the world system without renouncing violence and recognizing Israel and therefore a tight siege has been imposed on Gaza Strip. Hamas says it can’t conform to the conditions of the international community to be recognized by it because they go against its principles and charter. No one is asking Hamas to give up on its principles and charter but for God’s sake for the people’s sake step down and let the people live a normal life since there is no way to change the world and make it accept Hamas as it is. If this is said to Hamas leaders and spokesmen, there answer would be as follows; Do you want us to renounce Jerusalem ? Do you want us to renounce the Palestinian refugee’s right to return? Do you want us to let the Israelis take the land? As if Fatah has renounced Jerusalem or the right of return or the land. As if Israel doesn’t already have Jerusalem and the rest of the land and as if Israel would ever allow the refugees to return to their homeland. Every thing they say is just an excuse to stay in power which they have fought long years to seize from Fatah, its long-life rival.»


vozes da dissidência (Israel)

De Amira Hass no Haaretz

«(...) This is not the time to recall long-forgotten history lessons to say this is not the way to topple a government. Nor is it the time to make rational recommendations for balanced statesmanship. The time for such things has passed, along with the New Order we once arrogantly tried to establish in Lebanon, which only brought us Hezbollah. Along with the Orientalists' plans to reduce the popularity of the PLO, which only paved the way for the emergence of a militant Islamic nationalist movement.

The time of such recommendations has passed, along with the grab of Palestinian lands and hyperactive construction of settlements in the Oslo era, which only laid the cornerstone for the second intifada and the fall of Fatah.

The era of reason and judgment died long ago, even before the targeted assassinations of Fatah activists in the West Bank, which soon turned into shooting attacks on soldiers and the emergence of another few thousand young people taking up arms, not to mention the phenomenon of suicide bombers.

It is never the right time to say "we told you so," because once it is possible to say those words, they are already invalid. We cannot revive the dead, nor repair the damage caused by arrogance and megalomania.



De Daniel Barenboim no The Guardian

«(...) If, on the other hand, it really is possible to destroy Hamas through military operations, how does Israel envisage the reaction in Gaza once this has been accomplished? One and a half million Gaza residents will not suddenly go down on their knees in reverence for the power of the Israeli army. We must not forget that before Hamas was elected by the Palestinians, it was encouraged by Israel as a tactic to weaken Yasser Arafat. Israel's recent history leads me to believe that if Hamas is bombed out of existence, another group will most certainly take its place, a group that would be more radical, more violent, and more full of hatred towards Israel.

Israel cannot afford a military defeat for fear of disappearing from the map, yet history has proved that every military victory has left Israel in a weaker political position because of the emergence of radical groups. I do not underestimate the difficulty of the decisions the Israeli government must make every day, nor do I underestimate the importance of Israel's security. Nevertheless, I stand behind my conviction that the only truly viable plan for long-term security is to gain the acceptance of all our neighbours. I wish for a return in the year 2009 of the famous intelligence always ascribed to the Jews. I wish for a return of King Solomon's wisdom to Israel's decision-makers that they might use it to understand that Palestinians and Israelis have equal human rights.»