sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

sublime

O que devem as mulheres dizer sobre os anúncios da Triumph com a Cláudia Vieira? É um anúncio como outro qualquer mas todos estes comentários masculinos sobre uma campanha publicitária que não lhes é (aparentemente) dirigida, provam a minha teoria - a fotografia da moda foi transformada numa coisa que os homens querem lamber, seja com a língua vulgar do "comia-te toda", seja com a língua poética do homem culto. É uma coisa muito básica. Todas essas reproduções dos anúncios nos blogues masculinos fazem a sua parte na máquina de marketing da Triumph, o que não tem nada de mal. Não me incomodam nada mas também não me dão vontade de os reproduzir e de lhes escrever poemas. Lá está, acho-os bonitos mas são-me indiferentes. Sublime é outra coisa.

9 comentários:

CCF disse...

As contradições masculinas são mais que muitas! Nem a mocinha, nem a estética dos anúncios me dizem nada, mas incomoda-me que pouco a pouco regresse o estereótipo da mulher objecto sem que se diga nada, é como se o tempo da revolta já tivesse passado, a luta das mulheres passou de moda. E agora temos que ser tudo: lindas, sexy, boas profissionais, boas mães...que canseira!
~CC~

Clara disse...

Passa-me ao lado, mas é porque acho a campanha parolinha (nem sei porquê). A Claudia é girissima, muito fofa. Mas eu gosto muito mais dos da Intimissimi. Se calhar porque a lingerie não se quer fofa.
(e os da Agent Provocateur? Muito bons).

luís disse...

Muito bom, este post.

Helena disse...

CCF,
concordo com a sua crítica mas, por outro lado, ponho-me a pensar: que tipo de publicidade se pode fazer para vender soutiens?

Helena disse...

Maria N,
belo post! acho que os marketeiros da Triumph tocaram num nervo sensível dos homens portugueses.
Ó pra eles, até uivam virados para a lua...

Cristina GS disse...

Ainda não vi a publicidade de que falam, mas o qualificativo objecto conjugado no feminino já passou à história, pois os objectos masculinos também existem na publicidade, e olhem que há cada um que também deve pôr muitas lobas a uivar à Lua

Maria N. disse...

Eu também penso que a ideia de mulher objecto está ultrapassada, não por ter desaparecido mas por ser usada pelas mulheres a seu favor. No fim todos temos de competir e mais vale fazer uso de todas as vantagens que temos, sejam elas físicas ou intelectuais, se é isso que é preciso para conquistar o nosso lugar; e neste mundo pós-feminista já não se trata da mesma situação das nossas avós em que não se reconhecia às mulheres uma inteligência superior à da galinha; hoje é-nos reconhecida a inteligência e as capacidades intelectuais mas é-nos imposto o molde masculino, a visão masculina, o pensar no masculino.
O que toca o meu nervo feminista é o facto de a mulher sujeito (por oposição a objecto), continuar a ser definida como um inquilino masculino num corpo feminino e se estranhar quando ela não cumpre esse estereótipo. Isto está bem exemplificado no texto do Eduardo Cintra Torres que li no Estado Civil:

“Nos media e na blogosfera, os anúncios com Cláudia Vieira provocam a alegria do género masculino e o silêncio do género feminino. Estranha divergência: a campanha publicita produtos para as mulheres mas são os homens que cantam hossanas“

Não há homem nenhum a viver cá dentro. Porque haveria de cantar hossanas ao corpo de outra mulher? Penso que o grande problema das mulheres de hoje não é o corpo e as manipulações que se fazem dele mas sim a sua dimensão interior.

CCF disse...

Pois eu tenho pena de viver num mundo pós-feminista, pois não só acho que há antigas batalhas que ainda fazem sentido, veja-se, por exemplo: http://ana-de-amsterdam.blogspot.com/2008/11/ler.html

...como há novas, novos estereótipos que a todo o momento são inventados. A do "rainha-mãe" do anúncio é um deles.

Quanto à dicotomia beleza-inteligência, concordo...não faz sentido nenhum e não se opõem, nem nunca se opuseram. Afinal quem não gosta de beleza em tudo? Agora a beleza é ela própria padronizada pela sociedade, moldada, e por isso ficaram tantas vezes de fora lindas mulheres negras. E a publicidade tem tido papel essencial no fabrico dos padrões, por isso temos tantas miúdas gordinhas à beira do desespero. Os anúncios da DOVE são um bom exemplo de como se pode lutar contra isso.

Quanto ao facto dos homens apreciarem um anúncio que é para vender um produto para mulheres, creio que isso é para que as mulheres desejem ser como essas mulheres(comprando os produtos) e podendo assim agradar aos homens. Ou seja, sejam "sublimes".

Enfim, esta conversa é complexa e boa, mas difícil de continuar em caixa de comentários em que não nos podemos ver e explicar.

~CC~

Maria N. disse...

CC, é complexo mas eu não discordo daquilo que dizes. As mulheres contabilizam a sua aparência no valor que atribuem a si próprias, e essa aparência é influenciada pelo observador masculino; é-o porque a mulher nos mass media é apresentada como objecto do prazer masculino. Quando mais perto do padrão mais se auto valorizam. Aderiram a uma lógica de mercado num mundo super materialista. Não querem mudar nem alargar esse padrão, querem transformar-se nele. A prova disso é a proliferação de cirúrgias plásticas (cada vez mais acessíveis) e o sucesso que os shows televisivos baseados nelas têm. Paradoxalmente dão visibilidade às invisíveis mas enquanto pessoas que não se enquadram e que precisam, por isso, de ser melhoradas, aumentando assim a rejeição das imagens que fogem ao padrão.

A Dove é extraordinária porque dá visibilidade às mulheres da vida real, sem deixar de ter uma imagem bonita, sexy, simpática. Precisamos de mais empresas assim mas também de uma maior consciencialização das mulheres e também dos homens; é assustador ver miúdas de quinze anos a pedir implantes mamários como prenda de anos ou consumidas pela auto-destruição da anorexia. Quando foi que a beleza deixou de vir de dentro?