sábado, 6 de dezembro de 2008

peixes

Aterro nas memórias, coisas insignificantes – nada nas minhas memórias tem alguma importância – aconteceu-me tudo e nada me aconteceu. Se a vida fosse um pano de enxaguar o chão que se torcesse, espremesse até se romper, não sairia nada, nenhuma pinga de água rolaria pelas faces fazendo cócegas no nariz. Um espirro e era tudo. A memória pode ser um copo de vinho verde que se bebeu uma tarde na esplanada de um restaurante típico do Gerês, frente a um lago artificial forçado à existência pela barragem que o meu pai ajudou a erguer, mãos nuas e lampião a petróleo na cabeça, no turno da noite das entranhas da serra, imitando o sotaque do italiano que lhe chamava bambino, fazendo rir os homens sujos, mais pretos que os pretos, dentes a brilhar dentro da terra. As memórias do meu pai confundem-se com as minhas. Um copo de vinho verde, dizia eu, e um mergulho na água, pés feridos nas pedrinhas do fundo do lago - sangram para os peixes. O meu pai furava a terra sob os cascos dos cavalos selvagens e dos lobos, os mesmos de quem os emigrantes furtivos se protegiam quando atravessavam a serra a pé, a salto para Espanha e daí para França. A minha tia ia nesse grupo que empunhava archotes pela noite fora e pisava a terra cada vez mais fina sobre a cabeça do meu pai. A maior preocupação dele era não deixar que o lampião se apagasse. Distraiu-se e caiu da parede de betão num voo de águia para o infinito lá de baixo. Deixou a perna sangrar para os peixes, pendurada pelos tendões, foi um milagre, disseram as freiras no hospital, não ficar sem ela. Ele não sabia de quem eram os passos na terra porque ainda não conhecia a minha mãe, irmã da tia que deixou sobre os homens da serra o rasto de mil e um sonhos embrulhados com o chouriço de sangue e a broa de milho, ao lado do marido de fresco, jogador de futebol, escândalo da família, que trocaria por outro na terra da flor de lis. A tia que arreliava a viscondessa sua madrinha com a recusa na aprendizagem da etiqueta rígida do solar. Que ironia ela ser hoje especialista na etiqueta rígida da diplomacia francesa, cabelo louro, corte à Mireille Mathieu e vestidos de alta-costura, recebendo embaixadores e chefes de estado de mãos muito brancas estendidas a dizer as palavras correctas e sem nunca se enganar nos talheres. A memória pode ser um copo de beaujolais no pátio da sua casa na Nova Caledónia.
E a minha mãe? A minha mãe dói tanto que custa falar. As memórias dela não se confundem com as minhas, são as minhas. A memória pode ser uma dor imensa no fundo de um copo de vinho verde. Pode ser o riso da minha mãe na excentricidade dos peixes do rio.

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