quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

neve


Carlos Estevez - La relatividad del Espacio, 2007


No Domingo a neve caía mas não era neve que embranquecesse as árvores, o chão e os telhados porque derretia mal batia em alguma coisa. Não era neve grossa que se amassa e enrola nas mãos; era pouco mais que gotas de chuva geladas e que por isso caíam mais devagar transformando a janela do meu quarto num canal de televisão mal sintonizado; o plátano em grande plano e os carvalhos e castanheiros mais atrás e mais atrás ainda, o contorno do monte de Santa Marinha para cujo lado acordo todas as manhãs. A verdadeira neve caía alguns quilómetros mais para o interior, entupindo estradas e enregelando motoristas de camiões.


No Sábado adormeci sobre a leitura de «O Castelo», com o agrimensor K. perdido algures numa dessas aldeias brancas, pés enterrados na neve, arrastando-se com dificuldade ou fazendo-se arrastar por alguém, entrando e saindo das casas, encontrando pessoas que tanto são como não são qualquer coisa e vivem em redor de um castelo que tanto é como não é. Adormeci sobre toda aquela neve sem suspeitar que acordaria dentro do castelo, olhos semi-cerrados pela luz do dia porque me esqueci de fechar as portadas exteriores, e a neve que não era neve caindo à minha frente, sem deixar um caminho branco onde pudesse imprimir pegadas que pudessem servir de guia a quem me quisesse encontrar.

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