domingo, 28 de dezembro de 2008

Israel

Quando eu era pequenina ia à catequese aos sábados à tarde. A minha catequista era uma ex-freira, muito magra, muito pequena, sempre vestida de escuro com uma bata preta por cima da roupa, enormes olheiras castanhas em redor dos olhos, cabelos e lábios escuros. Cresci à volta dela. Foi minha educadora no infantário, professora da ATL e catequista. Foi graças a ela que cheguei à escola primária a saber ler e escrever, somar e subtrair, disciplinada e obediente, com a história da fundação de Portugal memorizada.
- O primeiro rei de Portugal foi… – dizia.
- D. Afonso Henriques! – respondia a sala em coro.
- E nasceu em…
- Guimarães!
- Conquistou Portugal aos…
- Mouros!
- Com a ajuda de…
- Deus!
- Que está no…
- Céuuuuu!
E apontávamos para o tecto.
Na catequese contava-nos histórias da Bíblia. Eram histórias muito bonitas que diziam que os pobres, as mulheres, os doentes, os fracos, herdariam o reino dos céus. Parecia-me muito justo porque se havia alguém a precisar de um reino eram esses; reino que era sinónimo de riqueza, beleza, força, poder e justiça, tal e qual Camelote na estória aos quadradinhos do Príncipe Valente que eu lia no Primeiro de Janeiro.
Lembro-me, como se fosse hoje, do que ela contou sobre a crucificação de Jesus e da forma como o fez. Carinhas tristes, lágrimas a lavar as pestanas, quase a escorregar pelas bochechas, soltávamos suspiros pelo coração.
- Depois de crucificarem Jesus, ele contemplou a terra e disse: “Ah Israel, Israel! Nunca haverá paz em Israel”. E na verdade, como já devem ter visto nas notícias, Israel está sempre em pé de guerra.
Não sei se isso está na Bíblia, se foi ela que inventou – era uma grande apreciadora de teatro, particularmente do drama – mas a frase nunca mais me saiu da cabeça. Lia qualquer coisa sobre Israel no jornal, ou via na televisão, e lembrava-me da profecia. Ah Israel, Israel, pensava, imitando a expressão desolada dela, os dedos magríssimos colados na cara que abanava de um lado para o outro.
Hoje, ao ler as notícias de mais uma escalada de violência – é tanta e tão antiga que já não há heróis nem vilões, nem Afonso Henriques e Mouros da versão da catequista, apenas corpos que se contam mas não se contabilizam, porque a indiferença da repetição já não deixa distinguir nem memorizar – e continuo a lembrar-me da profecia que não sei bem se foi de Jesus, se foi da dona Augustinha.

2 comentários:

io disse...

delicioso post! óptimo 2009!

Maria N. disse...

Obrigada io, para si também :)