quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

cadeira


Telefonaram-me dizendo que faltavam as fotocópias dos bilhetes de identidade dos meus filhos.
- Faltam? Mas vocês ficaram com elas quando abriram o processo.
- Não. Não foram entregues, senão estariam aqui. Convém entregá-las cá ainda hoje porque estou com isto nas mãos, se quiser evitar mais atrasos.
O atraso refere-se à minha reclamação dos valores indevidamente cobrados por deus.




O funcionário arrasta uma cadeira do fundo da sala monocromática até à sua secretária. É velha, de napa preta roída, já tem alguns buracos que mostram a esponja amarela que a forra. Pede-me que me sente nela e senta-se do outro lado da mesa. Não me estendeu a mão para me cumprimentar e disse bom dia com relutância, sem mexer os lábios. Ventrículo. O incómodo é todo meu mas ele parece pensar o contrário. Mantém a cara fechada na antipatia. A cor da roupa mal se distingue da tonalidade da pele e do cabelo, penteado para trás com gel. Reparo nos papéis brancos que tem em cima da secretária, preenchidos com contas de somar e de subtrair, onde tentou zelosamente poupar todos os cêntimos possíveis ao estado. Esmiúçam o meu passado contribuinte.
Descalcei a luva da mão direita e entreguei-lhe as fotocópias dos bilhetes de identidade desculpando-me pela fraca qualidade - a minha impressora multi-funções estava com pouca tinta. Observa bem as fotocópias e finalmente diz qualquer coisa. Falta mais um documento, explica-me.
- Convém trazê-lo cá ainda hoje enquanto estou com isto nas mãos.
Não vale a pena dizer que esse documento também já tinha sido entregue, que na abertura do processo outro funcionário tinha verificado a papelada.
- Então terei de cá vir novamente…
Não pede desculpa pelo incómodo. O incómodo é todo do funcionário que não só representa deus como também as suas dores. Discretamente empurro a cadeira velha para trás tentando fugir do mau hálito dele. Não lhe consigo ver os olhos, apenas o reflexo das luzes brancas nos seus óculos, como nos filmes antigos em que o interrogador escondia o rosto atrás de uma luz muito forte que incidia na cara do interrogado enquanto lhe gritava “Confessa, confessa!”. Parece-me que quer que eu confesse qualquer coisa. Tento pensar nos meus pecados financeiros, mas não me lembro de nenhum. Ele dá uma ajuda e anuncia num tom acusador.
- A natação, assim como a ATL, não são despesas de educação.
Descalço a outra luva e ponho as mãos por baixo das coxas, apalpando a napa esburacada da cadeira. Cravo-lhe as unhas e rasgo-a devagarinho, aumentando os buracos do desespero dos outros que nela se sentaram antes de mim.

3 comentários:

Anónimo disse...

Mas a natação com um atestado médico pode ser despesa de saúde dedutivel mais que no item educação!

bell disse...

Gostei muito do texto.

Maria N. disse...

Anónimo, sim eu sei mas não se trata de despesa de saúde porque não foi receitada pelo médico. O que me espanta nestas coisas são as informações contraditórias. Vi alguns pareceres de especialistas que consideram a natação, por ser educação física, uma despesa de educação, o mesmo se passando com a ATL. Aliás não conheço ninguém que não deduza essa despesa no IRS.

Obrigada Bell. Tenho passado pelo teu blogue :)