quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
a razão dos mortos
A todas as escaladas de violência na Faixa de Gaza, seguem-se as análises e opiniões das pessoas que procuram enquadrar cada novo episódio de violência na história que vão construindo do conflito. Estas opiniões passam sempre pela atribuição de culpa e de razão. Mas haverá alguém com razão na insanidade que é o conflito israelo-palestiniano? Como se determina essa razão? Se um lado atira foguetes para o outro, aterrorizando o quotidiano de um povo, e este responde aterrorizando o quotidiano do outro, cumpre-se a justiça bíblica de olho por olho, dente por dente, a tal que nas palavras de Gandhi conduz a uma terra de cegos sem dentes. A razão de um lado é reposta pela razão do outro, sem que nada se resolva.
É uma luta desigual, não apenas pelo poderio bélico que favorece um dos lados, mas também pelos valores que favorece o outro, entre um povo ocidentalizado e próspero com tendências expansionistas e outro empobrecido e encurralado entre Israel e o Egipto – apenas ouvimos falar do bloqueio israelita mas os egípcios também o fazem não permitindo sequer a entrada no seu país dos palestinianos que tentavam fugir da ofensiva israelita – povo esse que escolheu o Hamas. Este coloca os valores da umma – colectivo dos fiéis – acima dos valores familiares e individuais, a destruição de Israel acima da vida do seu povo que não hesita em usar e sacrificar, primeiro como escudo e depois como vítimas do inimigo que exibe para as câmaras de televisão. Este lado terá sempre mais cegos e desdentados que o outro, desvantagem que é contabilizada na luta pelo apoio interno e externo, particularmente do resto do mundo islâmico, ao retratar os israelitas como assassinos impiedosos numa retaliação desproporcionada. Tentam ganhar a razão pela contagem dos mortos.
Lendo blogues verifico que esta pintura negativa dos israelitas está a ter cada vez menos eco. Vão crescendo as vozes de repúdio pelas acções do Hamas, mesmo entre aqueles que sempre se identificaram com a causa palestiniana. Os oprimidos tornaram-se opressores de si próprios pela mão do Hamas, mais eficazes a disparar que a sugerir soluções, obscurecendo a razão das vítimas. A razão dos mortos deixou de contar. Talvez seja essa também a percepção de Israel que se auto-autorizou a conduzir uma retaliação desproporcionada, curiosamente como já não fazia há anos, e precisamente a poucos dias de Obama se tornar presidente dos EUA. Ninguém diga que isto foi apenas auto defesa. Não foi. Também aqui há aproveitamento político. Também aqui falta vontade de resolver o conflito.
Há certas coisas onde não sou capaz de tomar partido e admiro as pessoas que conseguem decidir com uma rapidez espantosa de que lado da barricada estão, assim como aquelas a quem tudo isto é indiferente. Não escolher um lado e ao mesmo tempo não ser indiferente, é como caminhar na rua e ser apanhada no fogo cruzado de snipers que se alvejam mutuamente, escondidos por trás das janelas das casas de ambos os lados.
domingo, 28 de dezembro de 2008
língua das cobras
Acho muito engraçado ver a quantidade de brasileiros que o Google me envia à procura da língua das cobras. Se você é mais um, não se sinta defraudado pelo Google. Não se enganou muito porque eu tenho língua, mais de uma até, sou meia cobra e tenho uma colecção delas conservadas em frascos. Limpo-lhes o pó, aos frascos, ponho-os a brilhar.
distribuição
Há já algum tempo que não ia ao café da Prazeres. Ontem fui lá mas ela não estava, nem atrás nem à frente do balcão, nem na cozinha à volta dos fritos. Reparei que no canto onde costumava estar a arca dos gelados se encontra agora um computador. O monitor tijolo, ultrapassado, estava comido de sujidade assim como o teclado. Cinco crianças empoleiradas em cima umas das outras numa cadeira com rodas irrequietas que chiam quando raspam a tijoleira, fitavam o ecrã e instruíam a que manejava o rato, “clica ali, clica outra vez”, para depois dizer, “pronto, perdeste, agora sou eu”.
- Anabela, anda aqui a esta senhora – disse o velho que anda sempre pegado com a Prazeres mas não arreda pé do café.
A Anabela saltou da cadeira com as rodas irrequietas. A máquina do tabaco não aceita nenhuma moeda, já sei, não preciso tentar. Ela abre-a, retira um maço, recebe as moedas que coloca dentro da máquina que volta a fechar. Distribuição manual.
Lembrei-me de lhe perguntar se já tem um Magalhães. Ainda não.
Israel
Quando eu era pequenina ia à catequese aos sábados à tarde. A minha catequista era uma ex-freira, muito magra, muito pequena, sempre vestida de escuro com uma bata preta por cima da roupa, enormes olheiras castanhas em redor dos olhos, cabelos e lábios escuros. Cresci à volta dela. Foi minha educadora no infantário, professora da ATL e catequista. Foi graças a ela que cheguei à escola primária a saber ler e escrever, somar e subtrair, disciplinada e obediente, com a história da fundação de Portugal memorizada.
- O primeiro rei de Portugal foi… – dizia.
- D. Afonso Henriques! – respondia a sala em coro.
- E nasceu em…
- Guimarães!
- Conquistou Portugal aos…
- Mouros!
- Com a ajuda de…
- Deus!
- Que está no…
- Céuuuuu!
E apontávamos para o tecto.
Na catequese contava-nos histórias da Bíblia. Eram histórias muito bonitas que diziam que os pobres, as mulheres, os doentes, os fracos, herdariam o reino dos céus. Parecia-me muito justo porque se havia alguém a precisar de um reino eram esses; reino que era sinónimo de riqueza, beleza, força, poder e justiça, tal e qual Camelote na estória aos quadradinhos do Príncipe Valente que eu lia no Primeiro de Janeiro.
Lembro-me, como se fosse hoje, do que ela contou sobre a crucificação de Jesus e da forma como o fez. Carinhas tristes, lágrimas a lavar as pestanas, quase a escorregar pelas bochechas, soltávamos suspiros pelo coração.
- Depois de crucificarem Jesus, ele contemplou a terra e disse: “Ah Israel, Israel! Nunca haverá paz em Israel”. E na verdade, como já devem ter visto nas notícias, Israel está sempre em pé de guerra.
Não sei se isso está na Bíblia, se foi ela que inventou – era uma grande apreciadora de teatro, particularmente do drama – mas a frase nunca mais me saiu da cabeça. Lia qualquer coisa sobre Israel no jornal, ou via na televisão, e lembrava-me da profecia. Ah Israel, Israel, pensava, imitando a expressão desolada dela, os dedos magríssimos colados na cara que abanava de um lado para o outro.
Hoje, ao ler as notícias de mais uma escalada de violência – é tanta e tão antiga que já não há heróis nem vilões, nem Afonso Henriques e Mouros da versão da catequista, apenas corpos que se contam mas não se contabilizam, porque a indiferença da repetição já não deixa distinguir nem memorizar – e continuo a lembrar-me da profecia que não sei bem se foi de Jesus, se foi da dona Augustinha.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
virgem
horas tardias nos campos de azul
mostram-se coerentes e não são;
virgens de Outono caem do céu verde
não são amarelas de sardónicas
nem vermelhas de sangue
são tristes não têm cor mas sinto
horas tardias soltas nos campos
batem pela mulher verde que vadia
nos campos onde vadiam as horas.
1982
poema de um poeta morto de quem nunca ninguém ouviu falar
Com ela dói-me o prolongamento das nuvens
Com ela mantenho um olhar o prolongamento da amizade
Com ela o céu ofusca-a e mata-me devagarinho o pensamento
Com ela tudo é possível
Em Beirute ela é cúmplice das crianças mortas
Sopa de napalm
Com ela não sei o quanto tudo é possível
Mas, na agrura dos monumentos erguidos ao grande deus Eros
Espero pela minha vez de a beijar no colo
Longos enlaçamentos de amor e poesia
Zé Cari, 1982
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
in the ward before she went
in the ward before she went every day all winter she forgave me everybody all mankind she grew good God calling her home the blue mound strange idea not bad she must have been dark on the deathbed it grew again
the flowers on the night-table she couldn't turn her head I see the flowers I held them at arm's length before her eyes the things you see right hand left hand before her eyes that was my visit and she forgiving marguerites from the latin pearl they were all I could find
iron bed glossy white two foot wide all was white high off the ground vision of love in it see others' furniture and not the loved one how can one
Beckett, How It Is
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
criação
O que o Papa disse à Cúria Romana em 22 de Dezembro:
“A Igreja não pode e não deve limitar-se a transmitir aos seus fiéis apenas a mensagem da salvação. Ela tem uma responsabilidade em relação à criação e deve tornar presente também em público esta responsabilidade”.
E “ao fazê-lo – deve defender não só a terra, a água e o ar, como dons da criação que pertencem a todos”.
“Deve proteger também o homem contra a destruição de si mesmo. É necessário que haja qualquer coisa como uma ecologia do homem, correctamente entendida. Não é uma metafísica superada, se a Igreja fala da natureza do ser humano como homem e mulher e pede que se respeite esta ordem da criação.
Trata-se aqui da fé no Criador e da escuta da linguagem da criação, cujo desprezo seria uma autodestruição do homem e portanto uma destruição da própria obra de Deus”.
Parece-me claro que quando fala em respeito pela ordem da criação, o Papa entende estar essa ordem em perigo (subentende-se a referência à homossexualidade, mas também à contracepção). Não haverá falta de bebés tão cedo e a haver, ela terá mais a ver com a economia e a emancipação feminina do que com a orientação sexual de uma pequena parte da humanidade. Em sociedades onde a mão-de-obra é cada vez menos necessária, as populações continuarão a ajustar os seus valores e a produzir menos bebés. A aceitação cada vez maior que a homossexualidade tem, sobretudo nos países ocidentais, tem precisamente tudo a ver com este ajustamento de valores - a reprodução deixou de estar nos objectivos imediatos da população. Não se trata de destruição, mas de equilíbrio.
*nota : resto do discurso do Papa (tradução minha)
«Aquilo que é expresso e entendido com o termo "género", no fim resume-se à auto emancipação do homem da criação e do criador. O ser humano quer fazer tudo sozinho e dispor sempre e exclusivamente de tudo o que lhe diz respeito. Mas desta forma o ser humano vive contra a verdade, contra o espírito criador. A floresta tropical merece, sim, a nossa protecção, mas não a merece menos o homem como criatura, na qual está escrita uma mensagem que não significa contradição da nossa liberdade, mas a sua condição. Grandes teólogos da Escolástica qualificaram o matrimónio, que é o vínculo para a toda a vida entre homem e mulher, como o sacramento da criação, que o Criador instituiu e que Cristo – sem alterar a mensagem de criação – aceitou na história da sua aliança com os homens. Faz parte do anúncio de que a Igreja deve testemunhar a favor do Espírito Criador presente na natureza como um todo, e de especial modo na natureza do homem, criado à imagem de Deus. Nessa perspectiva, deve reler-se a encíclica Humanae Vitae: a intenção do Papa Paul VI era a de defender o amor contra a sexualidade de consumo, o futuro contra a alegada exclusividade do presente e a natureza do homem contra a sua manipulação. (...)»
cocktail Molotov
Lembram-me de como estamos sempre a um passo da barbárie, de como é frágil o mecanismo que nos mantém no lugar. Não é preciso muito para nos armarmos de cocktail Molotov. A democracia onde todos têm voz deixou de ouvir as vozes pacíficas do protesto. Estamos prontos para protestar com violência contra as incongruências da democracia neoliberal e, de seguida, estaremos prontos para o regresso dos totalitarismos. As palavras de Manuela Ferreira Leite sobre a suspensão da democracia correm o risco de se revelarem proféticas.
domingo, 21 de dezembro de 2008
beauty - 31knots
We were simply written into the script
As characters decidedly inciting some rift.
Protagonizing, agonizing.
Fictious sightseeeing, so frightening
What it might mean.
I want beauty to believe
That I can be a better sight to see.
That I can shape a saunter from a walk.
And I can grace the senses with a soft
Unassuming touch that, hitherto,
Has never seen the light of darkened rooms.
I have crowned her name
I have cursed it too.
I have held it high
As a basic truth.
But who are you?
Who are you?
Beauty,
We need to see
Still I act as if I have a chance
Relenting or abiding when I can
But, Beauty, hark that I want nothing more than to
fall right back into your arms
And you can sing me pretty lullabies
How everything that matters is in your eyes.
We're passing the massive-destruction-panic.
Didn't it stop dead in its track to vanish?
Didn't it mimic the boredom before it?
Calling into question the method of boredom.
Victory. Vanity.
Victory. Vanity.
Victory. Vanity.
Victory. Vanity.
I believe everything Victory says to me.
Oh, mirror, oh, mirror on the wall.
Is there no beauty behind the wall?
Anymore,
Everything is everywhere.
What a bore,
Who's to...
Giving more, cause everything...
I'm a whore,
from everything and everywhere.
Beauty's a whore, from everything and everywhere
Beauty is a whore for every
Who are you?
Where are you?
Beauty
We need to see.
Who are you?
Beauty is you.
See now?
sábado, 20 de dezembro de 2008
gargalhada
Nada como uma boa gargalhada para espantar a angst de uma manhã de sábado desperdiçada numa chamada para um call-center, com pronúncia e tudo.
call-center angst
Isto não é um post descrevendo mais uma experiência alucinante com um call-center. Não é necessário porque não deve haver ninguém que ao ler as palavras “call-center”, não se lembre de imediato de algum dos episódios mais frustrantes da sua vida e se identifique, por isso, com a minha história ainda que eu não a conte.
Tenho um amigo que usa constantemente a palavra “merda”, verbalmente e por escrito. Explicou-me que gosta de usar essa palavra porque é das poucas com que a generalidade das pessoas se identifica de imediato. Tem toda a razão. Podemos não saber uma série de coisas mas todos sabemos o que é uma merda. A palavra call-center também é assim.
A universalidade destas más experiências deveria fazer-nos pensar em tudo o que está errado neste mundo. Não deveria ser preciso uma crise financeira para isso porque o call-center, armado em oráculo, já nos vinha a prevenir há algum tempo.
O call-center repete sempre os mesmos detalhes, as mesmas instruções. Não interessa se o problema de hoje é diferente do de ontem, as instruções são as mesmas. Por vezes fazemos uma pergunta original e há necessidade de consultar o supervisor, o que nos enche de esperança, mas em vão porque nunca ninguém sabe o que fazer e mesmo que soubesse nada pode fazer. A frustração passa a raiva que é apenas outra impotência porque é dirigida a alguém do outro lado que é tão vítima como nós ou talvez mais; não se pode defender porque o que ele diz está provavelmente a ser gravado em algum lado.
O capitalismo emprega os operadores, treina-os mal e explora-os, porque está tão concentrado em obter lucros que já não consegue vender-nos nada. Transformou o apoio técnico em caixas de esvaziamento da frustração dos clientes.
A solução para os problemas dos nossos dias?
- Por favor coloque-se junto ao sistema. Desligue-o na ficha de alimentação e volte a ligá-lo.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
cadeira
Telefonaram-me dizendo que faltavam as fotocópias dos bilhetes de identidade dos meus filhos.
- Faltam? Mas vocês ficaram com elas quando abriram o processo.
- Não. Não foram entregues, senão estariam aqui. Convém entregá-las cá ainda hoje porque estou com isto nas mãos, se quiser evitar mais atrasos.
O atraso refere-se à minha reclamação dos valores indevidamente cobrados por deus.

O funcionário arrasta uma cadeira do fundo da sala monocromática até à sua secretária. É velha, de napa preta roída, já tem alguns buracos que mostram a esponja amarela que a forra. Pede-me que me sente nela e senta-se do outro lado da mesa. Não me estendeu a mão para me cumprimentar e disse bom dia com relutância, sem mexer os lábios. Ventrículo. O incómodo é todo meu mas ele parece pensar o contrário. Mantém a cara fechada na antipatia. A cor da roupa mal se distingue da tonalidade da pele e do cabelo, penteado para trás com gel. Reparo nos papéis brancos que tem em cima da secretária, preenchidos com contas de somar e de subtrair, onde tentou zelosamente poupar todos os cêntimos possíveis ao estado. Esmiúçam o meu passado contribuinte.
Descalcei a luva da mão direita e entreguei-lhe as fotocópias dos bilhetes de identidade desculpando-me pela fraca qualidade - a minha impressora multi-funções estava com pouca tinta. Observa bem as fotocópias e finalmente diz qualquer coisa. Falta mais um documento, explica-me.
- Convém trazê-lo cá ainda hoje enquanto estou com isto nas mãos.
Não vale a pena dizer que esse documento também já tinha sido entregue, que na abertura do processo outro funcionário tinha verificado a papelada.
- Então terei de cá vir novamente…
Não pede desculpa pelo incómodo. O incómodo é todo do funcionário que não só representa deus como também as suas dores. Discretamente empurro a cadeira velha para trás tentando fugir do mau hálito dele. Não lhe consigo ver os olhos, apenas o reflexo das luzes brancas nos seus óculos, como nos filmes antigos em que o interrogador escondia o rosto atrás de uma luz muito forte que incidia na cara do interrogado enquanto lhe gritava “Confessa, confessa!”. Parece-me que quer que eu confesse qualquer coisa. Tento pensar nos meus pecados financeiros, mas não me lembro de nenhum. Ele dá uma ajuda e anuncia num tom acusador.
- A natação, assim como a ATL, não são despesas de educação.
Descalço a outra luva e ponho as mãos por baixo das coxas, apalpando a napa esburacada da cadeira. Cravo-lhe as unhas e rasgo-a devagarinho, aumentando os buracos do desespero dos outros que nela se sentaram antes de mim.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
sublime
O que devem as mulheres dizer sobre os anúncios da Triumph com a Cláudia Vieira? É um anúncio como outro qualquer mas todos estes comentários masculinos sobre uma campanha publicitária que não lhes é (aparentemente) dirigida, provam a minha teoria - a fotografia da moda foi transformada numa coisa que os homens querem lamber, seja com a língua vulgar do "comia-te toda", seja com a língua poética do homem culto. É uma coisa muito básica. Todas essas reproduções dos anúncios nos blogues masculinos fazem a sua parte na máquina de marketing da Triumph, o que não tem nada de mal. Não me incomodam nada mas também não me dão vontade de os reproduzir e de lhes escrever poemas. Lá está, acho-os bonitos mas são-me indiferentes. Sublime é outra coisa.
domingo, 7 de dezembro de 2008
aparição
Naquela igreja apareceu uma manhã um bebé dentro de uma alcofa em cima do altar. Apareceu ao sacristão que momentos antes tinha aberto os portões, verificara se estava tudo em ordem e se dirigira à sacristia de onde agora regressava. Branco, com cabelo negro, o bebé estava embrulhado numa manta de lã azul, bem protegido do frio; não chorava. Sob a luz da clarabóia tinha aura de santo, muito semelhante ao menino Jesus que estava aninhado no colo da estátua de pau de S. José. O sacristão espreitou entre os bancos, dentro dos confessionários, deu a volta ao templo por dentro e por fora, mas não havia ninguém. Era muito cedo.
Mais tarde contou a história à polícia e aos jornalistas. Apareceu na televisão e lamentou não ter um gravador VHS. Recortou todos os artigos de jornal que conseguiu encontrar e guardou-os dentro de um envelope que fechou à chave na gaveta do armário que servia de suporte ao santuário da sua casa. Seria rapidamente esquecido por todos e o nome da aldeia voltaria ao anonimato dos dias que se sucedem iguais.
Excepto quando aparecem meninos jesus no altar da igreja.
sábado, 6 de dezembro de 2008
the black art

Carlos Estevez - Amores Difíciles, 2007
A woman who writes feels too much,
those trances and portents!
As if cycles and children and islands
weren't enough; as if mourners and gossips
and vegetables were never enough.
She thinks she can warn the stars.
A writer is essentially a spy.
Dear love, I am that girl.
A man who writes knows too much,
such spells and fetiches!
As if erections and congresses and products
weren't enough; as if machines and galleons
and wars were never enough.
With used furniture he makes a tree.
A writer is essentially a crook.
Dear love, you are that man.
Never loving ourselves,
hating even our shoes and our hats,
we love each other, precious , precious .
Our hands are light blue and gentle.
Our eyes are full of terrible confessions.
But when we marry,
the children leave in disgust.
There is too much food and no one left over
to eat up all the weird abundance.
- Anne Sexton, The Complete Poems
peixes
Aterro nas memórias, coisas insignificantes – nada nas minhas memórias tem alguma importância – aconteceu-me tudo e nada me aconteceu. Se a vida fosse um pano de enxaguar o chão que se torcesse, espremesse até se romper, não sairia nada, nenhuma pinga de água rolaria pelas faces fazendo cócegas no nariz. Um espirro e era tudo. A memória pode ser um copo de vinho verde que se bebeu uma tarde na esplanada de um restaurante típico do Gerês, frente a um lago artificial forçado à existência pela barragem que o meu pai ajudou a erguer, mãos nuas e lampião a petróleo na cabeça, no turno da noite das entranhas da serra, imitando o sotaque do italiano que lhe chamava bambino, fazendo rir os homens sujos, mais pretos que os pretos, dentes a brilhar dentro da terra. As memórias do meu pai confundem-se com as minhas. Um copo de vinho verde, dizia eu, e um mergulho na água, pés feridos nas pedrinhas do fundo do lago - sangram para os peixes. O meu pai furava a terra sob os cascos dos cavalos selvagens e dos lobos, os mesmos de quem os emigrantes furtivos se protegiam quando atravessavam a serra a pé, a salto para Espanha e daí para França. A minha tia ia nesse grupo que empunhava archotes pela noite fora e pisava a terra cada vez mais fina sobre a cabeça do meu pai. A maior preocupação dele era não deixar que o lampião se apagasse. Distraiu-se e caiu da parede de betão num voo de águia para o infinito lá de baixo. Deixou a perna sangrar para os peixes, pendurada pelos tendões, foi um milagre, disseram as freiras no hospital, não ficar sem ela. Ele não sabia de quem eram os passos na terra porque ainda não conhecia a minha mãe, irmã da tia que deixou sobre os homens da serra o rasto de mil e um sonhos embrulhados com o chouriço de sangue e a broa de milho, ao lado do marido de fresco, jogador de futebol, escândalo da família, que trocaria por outro na terra da flor de lis. A tia que arreliava a viscondessa sua madrinha com a recusa na aprendizagem da etiqueta rígida do solar. Que ironia ela ser hoje especialista na etiqueta rígida da diplomacia francesa, cabelo louro, corte à Mireille Mathieu e vestidos de alta-costura, recebendo embaixadores e chefes de estado de mãos muito brancas estendidas a dizer as palavras correctas e sem nunca se enganar nos talheres. A memória pode ser um copo de beaujolais no pátio da sua casa na Nova Caledónia.
E a minha mãe? A minha mãe dói tanto que custa falar. As memórias dela não se confundem com as minhas, são as minhas. A memória pode ser uma dor imensa no fundo de um copo de vinho verde. Pode ser o riso da minha mãe na excentricidade dos peixes do rio.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Odetta Holmes 1930-2008
When I was a little bitty baby
My mama would rock me in the cradle
In them old cotton fields back home
Oh when those cotton balls get rotten
You can't pick you very much cotton
In them old cotton fields back home
It was down in Louisiana
Just a mile from Texarkana
In them old cotton fields back home
I was over in Arkansas
People ask me what you come here for
In them old cotton fields back home
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
neve

Carlos Estevez - La relatividad del Espacio, 2007
No Domingo a neve caía mas não era neve que embranquecesse as árvores, o chão e os telhados porque derretia mal batia em alguma coisa. Não era neve grossa que se amassa e enrola nas mãos; era pouco mais que gotas de chuva geladas e que por isso caíam mais devagar transformando a janela do meu quarto num canal de televisão mal sintonizado; o plátano em grande plano e os carvalhos e castanheiros mais atrás e mais atrás ainda, o contorno do monte de Santa Marinha para cujo lado acordo todas as manhãs. A verdadeira neve caía alguns quilómetros mais para o interior, entupindo estradas e enregelando motoristas de camiões.
No Sábado adormeci sobre a leitura de «O Castelo», com o agrimensor K. perdido algures numa dessas aldeias brancas, pés enterrados na neve, arrastando-se com dificuldade ou fazendo-se arrastar por alguém, entrando e saindo das casas, encontrando pessoas que tanto são como não são qualquer coisa e vivem em redor de um castelo que tanto é como não é. Adormeci sobre toda aquela neve sem suspeitar que acordaria dentro do castelo, olhos semi-cerrados pela luz do dia porque me esqueci de fechar as portadas exteriores, e a neve que não era neve caindo à minha frente, sem deixar um caminho branco onde pudesse imprimir pegadas que pudessem servir de guia a quem me quisesse encontrar.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
RIP a Remix Manifesto
Trailer do documentário de Brett Gaylor que recebeu o Dioraphte Audience Award em Amesterdão (International Documentary Film Festival) no último fim-de-semana. O documentário explora as ramificações artísticas e legais do remix, ou como ele mesmo definiu : "I wanted to document and explore the war of ideas between those who want to share ideas - the copyleft - and those who want to lock up ideas - the copyright."
Mais informação aqui.

