sexta-feira, 14 de novembro de 2008

termómetro

Qualquer coisa não estava certa. Os pés, seriam os pés? O culturista tinha uma t-shirt com palavras inglesas mas não se percebia o que diziam e a mãe com as crianças no carro, sorria, não buzinava, não barafustava com a mão direita que não se levantava furiosa para bater de encontro ao volante e até parou na passadeira, um olho mal pintado, qualquer coisa estava errada com a sua blusa. Os meus pés, reparei depois, calçavam sapatos diferentes e uma das minhas meias era de homem. A t-shirt do culturista estava vestida do avesso e a blusa da mãe que sorria estava mal abotoada, cada botão casado com a casa de cima à qual não pertencia.
Pela rua da manhã fora encontro mil e uma pequenas coisas fora dos seus sítios habituais. Meros detalhes, coisas sem consequência mas de muita importância. Um bancário não pode aparecer no banco com a ponta da gravata enfiada nas calças e manchas de suor nos sovacos. A funcionária do pão-quente não pode aparecer aos clientes com a touca do duche na cabeça. Toda a gente sabe que o toucinho-do-céu não é de porco mas era isso que dizia a etiqueta espetada no toucinho da montra do talho.

Nada pode ser como era esta manhã, repito, mas foi-o e o rapaz imberbe na esplanada do centro histórico, queixava-se da lentidão da internet free e do termómetro do amor que o perseguia nos sites de mp3 com o seu poing poing irritante. Estúpido termómetro; porque nunca mais casam a Maria e o Rui? E quem disse que o amor precisa de um termómetro? Sim. Quem foi que disse que o amor não passa de um poing poing irritante?

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