domingo, 2 de novembro de 2008

revolução

Quando a menarca chegava passávamos a pertencer ao clube das mulheres, com pleno direito a usar o respectivo crachá – o penso higiénico. Era o mundo feminino e privado que nos engolia de uma vez, de onde não havia retorno e que punha fim a qualquer ambiguidade de género que pudesse ainda existir, povoado por factos médicos que se aprendiam nas revistas femininas e pela superstição transmitida pelas avós – aquela coisa das luas e de não lavar o cabelo ou fazer o pino para o sangue menstrual não subir, neste caso descer, à cabeça –, de olhares superiores sobre as criancinhas por abençoar com a grande dávida da mãe natureza e que não podiam, por isso, ser dispensadas da ginástica.
A dávida, a máquina de fazer bebés, rapidamente passava a maldição, pelos incómodos da torrente mensal, as dores das contracções uterinas e a irritação que, dizia-se, nos metamorfoseava em megeras. Depois havia todos os rituais associados a ser mulher, desde o uso de rímel às torturas da estética infligidas no corpo. Via as mais velhas arrancarem a pele com cera depilatória e ver doía-me tanto como a menstruação. Diziam que «para se ser bela é preciso sofrer», mas se ser mulher já era sofrer; não chegava esse sofrimento? Era preciso arrancar bigodes imaginários também? E havia os panos, e os cintos e os alfinetes para os segurar no sítio, o enchumaço sempre vermelho húmido, sempre a lembrar às raparigas essa inferioridade que era a condição feminina. A minha irmã ainda usou os panos mas eu entrei no clube em plena revolução StayFree. A maior revolução dos anos setenta foi a dos pensos higiénicos. Com fita adesiva. 

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