sábado, 15 de novembro de 2008

pêndulo

Uma das poucas certezas que tinha enquanto crescia era a de encontrar sempre a minha mãe em casa e, nas raras ocasiões em que isso não acontecia, eu imaginava-a dentro de um comboio, cabelos ao vento, e uma nota sobre a mesa da cozinha vazia que não cheirava a almoço, onde estaria escrito “Adeus, fui viver uma vida só minha e procurar o que tanto preciso”.
Nunca encontrei a nota e a mãe nunca fugiu. Voltava sempre. Afinal tinha ido ao médico, à missa por alma de alguém, ou a qualquer sítio desses onde se pode encontrar tudo menos o que se precisa.
Nos seus anos de depressão ia muitas vezes ao médico. Lembro-me das coisas que eles lhe receitavam, uma papa de argila para colocar sobre o abdómen, por exemplo, e havia um médico no Porto que a punha a olhar para um pêndulo. Sem se rir. Ela achava piada ao pêndulo.
Teria sido mais fácil se o meu pai fosse um monstro mas nunca o foi. Fazia-lhe o pequeno-almoço e levava-lho à cama. Ajudava-a nas tarefas domésticas e era ele quem lidava com as coisas da escola, nos dava sermões e conselhos, nos punha tintura de iodo nos joelhos. Eu pensava que os homens casados eram todos assim. Nunca me passou pela cabeça que o meu pai talvez também tivesse sonhado fugir.

2 comentários:

CCF disse...

Os nossos pais são talvez o maior mistério que temos, mesmo tendo crescido ao seu lado. Bonito pai o teu.
~CC~

gballand disse...

Dificil fugir de si.
Gostei do texto e da maneira como o pai e a mae sao retratados, um pouco à maneira "impressionista".