sexta-feira, 28 de novembro de 2008

os meus barbudos

Quero saber onde estão os meus barbudos cabeludos e as minhas mulheres de roupas esquisitas que logo a seguir à revolução dos cravos se tornaram meus professores, alguns vindos de longe, não sei bem de onde – o meu mapa mundi acabava no Douro – de corpo moído pelas estradas impossíveis, e me convenceram de que eu era importante; que se calavam para ouvir o que esta criança tinha para dizer e me deixavam fazer os pês e os efes como eu quisesse; se comoviam com uma redacção sobre um cãozito escanzelado e me diziam que nunca mais professor algum me iria bater com a régua muito grossa na palma da mão. Abriram janelas, encheram a escola de música e de tintas e não fazia mal sujar as mãos; e de mãos sujas seguimos a Graça Morais que, esgotando-se as telas da escola, nos pôs a pintar a nossa imaginação nos tapumes das obras pela cidade dentro. E toda a gente dizia, que bonito! que alegria a cidade toda colorida! Toda a gente estava feliz e ninguém tinha medo de nós.
Os meus barbudos cabeludos e as minhas mulheres de roupas esquisitas preencheram-me com afectos e eu era a melhor aluna do anexo de S. Francisco.

2 comentários:

blue disse...

:)

e que é feito dos outros que não eram barbudos nem cabeludos e levavam o cineclube ao orfanato, o Chaplin às rapariguinhas de bibe, guardadas pelos muros que pintámos com a Graça Morais

e que é da poesia que chegava à escola, que é dos miúdos que manufacturavam livros, que é dos professores que nos levavam às oficnas de S.José...

Maria N. disse...

Sim, que é feito deles? Eu lembro-me muito de alguns que eram de fora e me marcaram. Gostava muito de saber o que é feito deles. Há uns anos, a minha irmã deu aulas perto de Vila Verde e encontrou lá o meu professor de Português do 5º ano. Lembrava-se perfeitamente de mim, aliás mal a viu perguntou-lhe se era minha irmã. Foi o único de quem soube alguma coisa.