domingo, 9 de novembro de 2008

Felgueiras

Conheci muito bem Felgueiras. Famílias inteiras cosiam muitas gáspeas sentadas nas soleiras das portas no Verão, junto das brasas do fogareiro no Inverno, depois do trabalho na fábrica, ao serão. Crianças de corpos franzinos em linhas de produção de sapatos que jornalistas ingleses calçavam quando, posando de clientela, filmaram no segredo da câmara oculta as fábricas dos meninos e das meninas que não estavam na escola. Os jornalistas portugueses, sempre distraídos, não tinham dado pelo furo mediático. O patrão elevado a comendador que se passeava no Ferrari evitando o proletariado que lhe pedia favores. Os machos sempre muito machos que comiam todas, de inocentes passavam a usadas e daí a putas, na boca deles. Mercedes dos fundos perdidos estacionados à porta dos barrancos a que chamavam fábricas, siberianas no Inverno, equatoriais no Verão. Contabilistas manhosos artistas nas artes da falsificação, bons psicólogos da incompetência conivente da fiscalidade. Lisboa é muito longe e eles também comem, diziam todos e todos comiam a miséria das gentes que desciam montanhas e atravessavam vales, afluindo à terra dos sapatos, à procura do pão, sonhando com o seu pedaço na riqueza rápida do boom do calçado. Nunca houve corrupção em Felgueiras.
As palavras faladas ao microfone contam uma história diferente das palavras que as paredes falam. E toda a gente sempre soube de tudo mas ninguém sabe de nada. Ninguém pode saber porque ninguém pode atirar uma pedra. Foi essa a escola que a Fátima Felgueiras frequentou.

4 comentários:

blue disse...

aquilo que sabemos neste país de medianias
onde não há frio
não há miséria
nem desemprego
e os 'magalhães' chegam às escolas que tantos não frequentam.

CCF disse...

Espantosamente linda a forma como nos contas esta vida terrível.
~CC~

Anónimo disse...

Excelente caracterização desse ambiente. Parabéns pela boa escrita.

Maria N. disse...

Obrigada pelos vossos comentários.

Cláudia, o mais absurdo de tudo era a normalidade com que as pessoas encaravam toda aquela situação. O trabalho infantil, por exemplo, era visto como um favor que os empresários faziam aos pais, tanto pelos pais como pelos empresários. A mesma normalidade com que ainda se aceitam algumas situações, e não é apenas lá, é pelo país fora.