terça-feira, 4 de novembro de 2008

Congo


Karel Prinsloo/AP

Michael Arunga/World Vision/Reuters

Walter Astrada/AFP



É uma história de ódios antigos.
A minha amiga Tutsi desistiu do sonho de regressar ao Ruanda, terra onde nasceu e onde entranhou por baixo da pele esse ódio passado de geração em geração.
Uma vez, em Munique, juntámo-nos numa mesa de amigos de várias nacionalidades. Alguém levara um amigo Hutu e apercebi-me que a distância das raízes, deixadas para trás na infância, não cura nada. A tensão que se tentava disfarçar sob uma capa de boas maneiras e uma educação universitária europeia era perceptível nos olhos que se evitavam, na proximidade física de que se fugia, no desconforto. A minha amiga, sempre tão faladora e bem -disposta, manteve nessa noite um mutismo sombrio.
Depois do extermínio de toda a família – com excepção de um irmão que vive na Polónia – no genocídio de 1994 e quando o sangue parou de correr, ela quis voltar ao Ruanda para ver se tinha sobrado alguém da multidão de irmãos, sobrinhos, tios e primos que formavam a sua família, procurar os rostos amigos e vizinhos da infância, enfim, a gente que lhe guardava as raízes. O irmão pediu-lhe que não fosse porque não era seguro. O sangue e o ódio apenas tinham parado de correr na imprensa internacional, pertença de uma comunidade que pela indiferença endossou o genocídio. O ódio ainda estava lá e o sangue fora só adiado e armazenado, à espera de baptizar as matanças futuras de Hutus e Tutsis, povos de onde saem generais que se auto intitulam libertadores, democratas e protectores do seu povo, explorando esse ódio para, como sempre, servir os seus interesses ou o dos senhores que os atiçam.
O conflito entre Hutus e Tutsis continua no leste do Congo, região muito rica em recursos naturais. Alguns jornais chamaram o conflito à primeira página mas as vozes dos deslocados, dos refugiados, dos que sofrem, são abafadas pela poluição visual e sonora de umas eleições americanas, onde tudo é reportado e esmiuçado até ao tutano, para entreter o mundo que espera o final feliz dessa grande novela.
A minha amiga disse-me que não chorou os familiares massacrados. «Não consigo chorar», disse-me e também não quis ver o Hotel Ruanda. Como se chora uma família inteira? E como choramos nós um povo inteiro? A dor pode ser de tal forma gigantesca que não chega a tocar-nos. Somos demasiado pequenos para ela, para a deixar invadir o coração.

6 comentários:

CCF disse...

Li com lágrimas que já descem.
Obrigada
~CC~

zonkzelda disse...

Excelente post.
Conseguiu escrever quase uma página de história sem nunca usar a palavra "racismo".
É obra!

Maria N. disse...

O racismo está implícito na palavra ódio.

zonkzelda disse...

Sim, pode ser que lhe pareça que tem essa ideia, mas quando houver um problema em que um preto seja agredido por brancos vai pensar, e escrever, racismo e não ódio.

Maria N. disse...

É verdade que estamos "programados" para entender o racismo como uma ideologia exclusiva dos brancos que se aplica apenas à cor, quando na verdade se aplica também a outras características físicas.
No entanto não foi esse o caso neste texto. Usei a palavra 'ódio' porque é o ódio que leva as pessoas a cometer as piores atrocidades,no caso do Ruanda,o genocídio.

zonkzelda disse...

Não é ódio nenhum.

Está profundamente enganada e comete um erro que até podia chamar-lhe racismo quando julga que os pretos se julgam todos iguais.
Não é verdade, entre os pretos funciona um racismo muito maior do que aquele que existe entre bancos e pretos, pretos e chineses ou hispânicos e americanos.
Note que estes dois últimos racismos são ignorados aqui em Portugal porque as versões oficiais, a que a senhora chama candidamente programas, assim obriga.
O racismo entre pretos baseia-se na etnia e a esta está sempre ligada a uma religião uma crença ou uma feitiçaria qualquer.
E isso torna o racismo sempre latente entre eles em manifestações da mais pura barbárie.
Um preto não gosta de matar o outro.
Quer sempre esborrachá-lo.

Mas isto, não se pode dizer.
Se tivesse vivido em África compreenderia.