quarta-feira, 5 de novembro de 2008

cartas a Salazar


O meu avô materno teve mil e uma profissões. Uma delas, a determinada altura da sua vida, foi escrever cartas a Salazar. A troco de algumas moedas escrevia cartas em nome de pessoas analfabetas. Transmitiam-lhe o que queriam dizer ao ditador e o meu avô traduzia a mensagem para uma linguagem cuidada e floreada, caligrafia impecável, segundo dizia a minha mãe. Por vezes pergunto-me o que terá acontecido a essas cartas. Estarão arquivadas em qualquer sítio ou terão ido directamente para o crematório?

Um dia destes, quem sabe, ainda vou ler uma carta escrita pelo meu avô a Salazar no Caminhos da Memória mas não saberei que é dele. Ele assinava com o nome de outros.

2 comentários:

blue disse...

um país de que já poucos se lembram, um país com uma taxa de analfabetismo terrível... uma das situações mais difíceis da minha vida foi o confronto com a vergonha envergonhada de uma senhora que atendi no meu trabalho, ao dizer-me que não sabia ler o que lhe tinham mandado para casa.
de qualquer forma, o que hoje contas, faz-me lembrar um programa que vi sobre um homem que atravessava um deserto de sal, no Chile, para escrever e levar notícias aos habitantes de diversas aldeias.
um deserto de sal, aquele que as cartas do teu Avô atravessavam, nesses dias...

Maria N. disse...

Sem dúvida um deserto de sal e os que aprendiam a ler e a escrever faziam-no sob uma política de controle da literacia, por parte de um estado que considerava o saber e a razão fatais para a saúde moral das crianças, sobretudo das pobres (e eram tantas) que ele fez questão que fossem à escola apenas três anos em vez de quatro como era antes. Um autêntico desperdício de intelectos que tanto nos empobreceu.