sexta-feira, 28 de novembro de 2008

bons seres humanos

«Language is a form of human reason, which has its internal logic of which man knows nothing.»
-Lévi Strauss

Resumindo este texto da Isabela, quando chegam à escola os alunos devem possuir uma intuição da linguagem que corresponde a cada contexto, valores, respeito pela autoridade dos professores, conhecer e cumprir as regras do debate, não serem frustrados, estarem integrados na sociedade.

Existem os ciclos viciosos que perpetuam os problemas e impossibilitam a mobilidade social. Dificultam o papel da escola, impossibilitam até, porque a escola não foi apetrechada de meios para poder intervir na cura das consequências dos males sociais que a afectam. Espera-se dos professores um heroísmo irrealista quando por outro lado se desclassifica e confunde o seu papel social. Estou convencida que ainda vamos pagar bem caro esta desclassificação social dos professores. Ela acontece a par da desclassificação social do aluno e quase não nos apercebemos do que andamos a fazer. Falamos todos muito e pensamos que eles, esses estúpidos que não sabem porque protestam nem sabem o que dizem quando exigem aulas de educação sexual, não nos ouvem, mas ouvem, e a mensagem que lhes chega é que nós, os grandes, os inteligentes que nunca perdemos o direito ao benefício do uso da língua e que tão bem conhecemos as regras do debate, linguarejamos e debatemos muito mas não sabemos resolver os problemas que nós mesmos criamos.

Há crianças que chegam à escola com todos esses requisitos para uma boa aprendizagem, e são a alegria dos professores. Motivam-se mutuamente porque não há nada mais compensador para um professor do que ver os seus alunos progredirem, sabendo que é o resultado do seu esforço e empenhamento. Mas também há crianças que não chegam assim à escola e a escola tem de saber contrariar esse ciclo vicioso. Não o poderá nunca fazer sozinha - precisará do empenhamento de todos - mas ela é uma parte essencial, se não na resolução, na melhoria das condições morais, psicológicas e intelectuais dessas crianças. Cada criança resgatada a esso ciclo vicioso vale por cem meninos educados para as elites nas escolas muito caras e muito chiques, coisa que os rankings nunca têm em conta; se tivessem haveria mais escolas públicas nos primeiros dez lugares.

O maior drama do mundo civilizado é nada se fazer por essas crianças que se agrupam em turmas isoladas, para não perturbarem os outros, e aí são esquecidas até completarem a escolaridade na secretaria, sem conhecimento e sem formação de valores. O maior drama é quase ninguém ter percebido que o país não vai ter défice de médicos, advogados, políticos, trolhas, jardineiros, carpinteiros, jornalistas… o país vai ter um grande défice de bons seres humanos.

2 comentários:

CCF disse...

:) Li com muita atenção e gosto esta reflexão. Estes meninos nem têm culpa nem têm que ser desculpados e isso torna tudo complexo...mas desafiante.
~CC~

Maria N. disse...

CC, sim é muito complexo. A escola é cada vez mais a única instituição que pode ensinar esses valores às crianças porque com a erosão da vida familiar e o desaparecimento de outras instituições sociais (como as da igreja) dessas comunidades, a escola é a única instituição que existe perto delas, em muitos casos o único sítio onde as crianças podem ter uma conversa normal com adultos (o tal problema da intuição da linguagem vem dessa falta de contacto saudável com adultos). Não podemos é esperar que a escola desempenhe esse papel sobrecarregando os professores e sem passar por mudanças de fundo. A ideia de escola como um lugar de aprendizagem exclusiva das matérias não se adapta à realidade que temos. Precisamos de uma nova ideia de escola, incluir outros profissionais e outras aprendizagens e aproximar mais as comunidades dela.
Abraço :)