sábado, 15 de novembro de 2008

agorafobia


Midori Yamada

Entrou no quarto e começou a despir-se. Já não tremia mas a cabeça ainda transbordava o álcool, a água e a noite. Estava a ficar grande e pesada, uma melancia que a arrastava para o sono, a morte, ou a loucura, um poço sem fundo onde se debruçaria e se deixaria cair levando consigo um desejo formulado há mil anos na agora onde o pânico a trocou por esta que ela agora é. Encontrava-se ao pé do abismo. O abismo é tudo o que há lá fora, não viveu, os risos que não partilhou, os segredos mais escondidos dos outros que se revelam nos momentos mais íntimos e depois se esquecem, a porta que a separa da rua e que insiste em fechar-se porque estraga sempre tudo, porque tem essa forma de ser de nunca levar tudo até ao fim, até às últimas consequências.
Pálida, olheiras fundas, esconde o corpo sob o lençol azul. Quase engolida pelas almofadas brancas, parece um barco à vela à deriva no mar.
- Não me olhem com essa cara de pena! Venham sentar-se aqui, perto de mim.
A Ana senta-se na cama dela e segura-lhe as mãos dentro das suas. Deito-me a seu lado e a cama protesta. Abraço-a e ela repousa a cabeça no meu ombro.

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