às vezes quando se me escurece a alma penso
deveria praticar ioga
erguer-me como uma árvore assimétrica na torrente
de quando em quando o vento arrancar-me-ia uma ou outra ramada
talvez me cobrissem heras ou vinha virgem
os pássaros alimentar-se-iam de pequenos vermes e insectos
estranhos líquenes tomariam o meu torso
- Cláudia Santos Silva
Ás vezes quando se me escurece a alma recordo uma rua contínua paralela à tua, e outra ainda antiga com o arco que traçavas no papel, por onde devem ter descido rainhas e subido criadas, e talvez, mas só talvez porque não sei, a desenhavas por ter sido aí que se embruxaram os homens e despediram as mulheres.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
bons seres humanos
«Language is a form of human reason, which has its internal logic of which man knows nothing.»
-Lévi Strauss
Resumindo este texto da Isabela, quando chegam à escola os alunos devem possuir uma intuição da linguagem que corresponde a cada contexto, valores, respeito pela autoridade dos professores, conhecer e cumprir as regras do debate, não serem frustrados, estarem integrados na sociedade.
Existem os ciclos viciosos que perpetuam os problemas e impossibilitam a mobilidade social. Dificultam o papel da escola, impossibilitam até, porque a escola não foi apetrechada de meios para poder intervir na cura das consequências dos males sociais que a afectam. Espera-se dos professores um heroísmo irrealista quando por outro lado se desclassifica e confunde o seu papel social. Estou convencida que ainda vamos pagar bem caro esta desclassificação social dos professores. Ela acontece a par da desclassificação social do aluno e quase não nos apercebemos do que andamos a fazer. Falamos todos muito e pensamos que eles, esses estúpidos que não sabem porque protestam nem sabem o que dizem quando exigem aulas de educação sexual, não nos ouvem, mas ouvem, e a mensagem que lhes chega é que nós, os grandes, os inteligentes que nunca perdemos o direito ao benefício do uso da língua e que tão bem conhecemos as regras do debate, linguarejamos e debatemos muito mas não sabemos resolver os problemas que nós mesmos criamos.
Há crianças que chegam à escola com todos esses requisitos para uma boa aprendizagem, e são a alegria dos professores. Motivam-se mutuamente porque não há nada mais compensador para um professor do que ver os seus alunos progredirem, sabendo que é o resultado do seu esforço e empenhamento. Mas também há crianças que não chegam assim à escola e a escola tem de saber contrariar esse ciclo vicioso. Não o poderá nunca fazer sozinha - precisará do empenhamento de todos - mas ela é uma parte essencial, se não na resolução, na melhoria das condições morais, psicológicas e intelectuais dessas crianças. Cada criança resgatada a esso ciclo vicioso vale por cem meninos educados para as elites nas escolas muito caras e muito chiques, coisa que os rankings nunca têm em conta; se tivessem haveria mais escolas públicas nos primeiros dez lugares.
O maior drama do mundo civilizado é nada se fazer por essas crianças que se agrupam em turmas isoladas, para não perturbarem os outros, e aí são esquecidas até completarem a escolaridade na secretaria, sem conhecimento e sem formação de valores. O maior drama é quase ninguém ter percebido que o país não vai ter défice de médicos, advogados, políticos, trolhas, jardineiros, carpinteiros, jornalistas… o país vai ter um grande défice de bons seres humanos.
Bracara Augusta e o tesouro arqueológico
Deve doer muito ser bracarense
«O que está claro é que o executivo de Mesquita Machado pretende lavar as mãos, acusando a Unidade de Arqueologia de ter optado por enterrar o tesouro romano agora descoberto. Tudo está a ser decidido sem o necessário debate público, sem a audição de outros especialistas e fazendo tábua rasa das opiniões versadas por alguns dos mais conceituados arqueólogos nacionais.» - no Avenida Central
os meus barbudos
Quero saber onde estão os meus barbudos cabeludos e as minhas mulheres de roupas esquisitas que logo a seguir à revolução dos cravos se tornaram meus professores, alguns vindos de longe, não sei bem de onde – o meu mapa mundi acabava no Douro – de corpo moído pelas estradas impossíveis, e me convenceram de que eu era importante; que se calavam para ouvir o que esta criança tinha para dizer e me deixavam fazer os pês e os efes como eu quisesse; se comoviam com uma redacção sobre um cãozito escanzelado e me diziam que nunca mais professor algum me iria bater com a régua muito grossa na palma da mão. Abriram janelas, encheram a escola de música e de tintas e não fazia mal sujar as mãos; e de mãos sujas seguimos a Graça Morais que, esgotando-se as telas da escola, nos pôs a pintar a nossa imaginação nos tapumes das obras pela cidade dentro. E toda a gente dizia, que bonito! que alegria a cidade toda colorida! Toda a gente estava feliz e ninguém tinha medo de nós.
Os meus barbudos cabeludos e as minhas mulheres de roupas esquisitas preencheram-me com afectos e eu era a melhor aluna do anexo de S. Francisco.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
maison d'arrêt
Já tinha estado preso e decidira que a morte era preferível à privação moral e física. Quando vieram de novo prendê-lo fechou-se no escritório e deu um tiro na cara. Destruiu o nariz e o maxilar mas não morreu. Socorreu-se da faca corta-papel e espetou-a no pescoço repetidas vezes sem nunca encontrar uma artéria que o libertasse. Virou-se então para o coração e foi lá que enterrou a faca. Por esta altura já tinha tinta suficiente para uma despedida e de mão firme escreveu com o seu próprio sangue
«Moi, Sebastien-Roch Nicolas de Chamfort, déclare avoir voulu mourir en homme libre plutôt que d'être reconduit en esclave dans une maison d'arrêt.»
O mordomo encontrou-o inconsciente sobre uma poça de sangue. O corpo, que sofria intensamente mas se recusava a morrer, resistiu ainda um ano sob o olhar atento dum polícia a quem Chamfort pagava uma coroa por dia pelos seus serviços.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
fila de cavaleiros
«É a coisa mas bela da terra,
uma fila de cavaleiros» diz. «Não,
de infantes». «Não, de navios». E eu penso,
belo é o que se ama.
- Safo
Também me chateia. As mulheres sempre foram o parente pobre da intelectualidade. É ridículo mas essas listas têm as suas vantagens. Por exemplo, numa lista de trinta poetas é quase certo que só dois ou três são mulheres, e é isso que desperta o meu interesse porque fico logo a saber que escreveram os melhores poemas. Têm de ser superiores para estarem naquela lista, o que quase sempre se confirma. Tal como a Ana, não acho que estas coisas sejam intencionais mas a diferença continua a ter de ser excepcional para ser aceite. Aos homens só se pede que não sejam medíocres.
seis meses
Envia-me o estado uma carta a dizer que eu tenho uma dívida com ele e que se não me dirigir ao seu templo dentro de cinco dias, vai proceder à penhora dos meus bens. Para além de eu não fazer a mínima ideia de que dívida o estado se queixa - o estado não especifica - o tom ameaçador com que se me dirige, no estilo dispara primeiro pergunta depois, é revoltante e foi com revolta que entrei no edifício das finanças. Explicou-me a funcionária que por vezes o sistema falha, mas que posso ignorar a carta porque eu não devo nada ao estado. Apeteceu-me dizer – suspendam o sistema por seis meses e metam tudo na ordem, se faz favor, mas não disse.
Holodomor
Na Terceira Noite, o Rui Bebiano, chama a atenção para o Holodomor (praticamente ignorado pela imprensa internacional) e o revisionismo histórico que se tenta fazer do passado.
Apenas tenho a adicionar a recusa de Medvedev em estar presente nas comemorações do 75º aniversário do Holodomor em Kiev. A fome provocada pelas reformas colectivistas de Estaline matou milhões na Ucrânia mas também na Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão. Medvedev recusou estar presente na cerimónia usando o argumento de que distanciar a fome na Ucrânia da fome noutras regiões da antiga União Soviética, era cínico e imoral. Considera também questionável que se pretenda ver na fome que causou tantas vítimas, uma tentativa deliberada de extermínio, recusando o uso do termo genocídio. Mas as suas palavras chocam com o facto de na Rússia, embora não sendo glorificada, a herança Estalinista não ser explicitamente rejeitada. Para além disso todas estas considerações não impediram Medvedev de usar a palavra genocídio mal os georgianos se aproximaram da Ossétia do Sul, voltando a usá-la em Setembro, um mês depois do procurador russo ter revisto e drasticamente reduzido a contagem inicial dos corpos.
Fonte : Berliner Zeitung (em alemão)
burro (cont.)
Este episódio do burro ficou entranhado na minha memória visual e olfactiva. Contei o que vi ao meu pai. Pareceu-me muito preocupado e ao almoço quase não comeu. Era por causa do burro, transformado em campo de batalha onde jaziam o sangue, os ossos, a carne que eu vira e o cheiro que sentira. Uma visão para quem, como ele, acreditava nas premonições, nos avisos revelados por qualquer entidade divina aos inocentes, como Maria tinha feito aos pastorinhos. Não sei se isto aconteceu no 25 de Novembro mas andou lá perto, acabando o burro e o 25 por ficar associados nas minhas memórias.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
burro
No 25 de Novembro havia um circo acampado no terreno fora da escola, tigres dentro de jaulas e um burro preso a um poste. No intervalo fomos até lá ver aquele modo de vida que nos era tão estranho, quase burlesco. Estava muita gente junto dos tigres e um cheiro insuportável sobre todas as cabeças. Nunca tinha cheirado nada assim e estava curiosa, mais do que agoniada. Furei por entre as pernas da multidão para ver o que se passava. No chão estava um monte de carne, ossos e sangue. Era dali que vinha o cheiro. Um dos homens do circo cortava o monte com um machado e outro agarrava nos pedaços vermelhos e atirava-os para dentro da jaula do tigre.
Nunca mais vi o burro.
adeus composição
O meu filho mais novo tem uma disciplina que se chama Oficina de Escrita onde a única coisa que escreve é o sumário. O mais velho também teve essa disciplina onde escrevia os sumários e pouco mais. Deveria chamar-se Oficina de Sumários.
cosas de Saramago
Porque criou Saramago um blogue?
«Quizás es esa novedad de volver a empezar. Escribir sin ningún condicionamiento. Los medios te pagarían, claro está. Pero mira, ha ganado Obama, me felicito, y a continuación escribo un artículo en el que pido sin medias tintas el cierre de Guantánamo y el cese del bloqueo económico a Cuba. Y así, sobre lo que se me ocurre. En realidad, el sistema acaba por integrarte. En el fondo no eres más que una guinda en el pastel. Te toleran. Se ríen de ti. ¡Cosas de Saramago!» - na entrevista de Saramago a Manuel Rivas, no El País Semanal.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
o album do senhor K
Gostei deste album de fotografias imaginárias de Kafka.
«Et si l'ami Max Brod ne s'était pas contenté de sauver des flammes les petits cahiers bleus. S'il avait, malgré l'interdiction, conservé aussi un mince album de seize photographies? Et ce serait cet album qui serait présenté ici. Un album de photographies improbables où Franz Kafka (Monsieur K.) apparaîtrait dans des lieux et approcherait des personnages qu'il aurait pu (ou qu'il n'aurait jamais dû) rencontrer. Une vie rêvée en sorte. Un hommage, de toute façon.»
a Geórgia é uma página virada
disse o Zé ao Dimitri. Será que é assim que se tratam um ao outro, pelo nome próprio? O Lutz tem razão. Os políticos querem sempre aparecer ao lado dos grandes, mas não lhes é suficiente. Lado a lado, frente a frente, enquanto apertam mãos, trocam abraços e posam para fotografias, encontram sempre uma forma de nos envergonhar. Não quero sentir vergonha mas como evitá-la se, tecnicamente, Sócrates me representa? Não se dirá que esta é uma atitude específica deste ou daquele indivíduo, que é um tolo; não, não é assim que funciona. Dir-se-á que é uma atitude portuguesa, de Portugal, e somos todos enfiados no mesmo saco sem ter tempo para encher os pulmões e expulsar o rubor das faces. Sufocamos.
sábado, 22 de novembro de 2008

Se não fosse o vento forte muito frio, hoje estaria calor. O sol entrou pela casa dentro pedindo-me que fosse lá fora. As folhas que juntamos ontem voavam malucas em círculos, arreliando os gatos que tentavam apanhá-las sob o olhar dos cães. Custa a crer que há tanto barulho para lá dos montes e eu não o ouço. O silêncio instalou-se todo aqui, numa calma aveludada a convidar à proximidade da lareira, ao chá e à leitura sublinhada a lápis. O gato enrolado aos meus pés, as aguarelas das crianças a secar em cima da mesa e o cheiro do pão-de-ló que cresce no forno da cozinha.
A Isabel trouxe-me cebolas. Estava triste porque lhe morreu a cadelita. «É assim, a gente ganha-lhes amor e depois sofre». O céu muito azul, prepara-se para engolir as folhas, o esqueleto do carvalho, os ramos do choupo e o dia, tudo embrulhado nas lágrimas dos que amam e depois sofrem.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
keep the faith, baby
“The American people…understand the real gamble is having the same old folks doing things over and over and over again and somehow expecting a different result.” - Barak Obama durante a sua campanha.
É interessante voltar aos blogues e fóruns de discussão onde americanos anónimos mostravam tanta esperança em Obama e verificar que, a cada nova escolha dele, os ânimos estremecem. Há muitas interrogações e incompreensão, mas há também ainda muito optimismo. Os mais optimistas tentam animar os pessimistas com frases do género: "dêem-lhe tempo", "escolher gente que sabe onde são os quartos de banho é bom, não é mau".
No BuzzFlash, Christine Bowman sugere que talvez seja necessário ressuscitar o velho slogan dos anos sessenta "Keep the Faith, Baby" para levantar a moral dos apoiantes mais progressistas de Obama, mas a força do "Change" parece ter esgotado as possibilidades de qualquer outro slogan. As pessoas querem mudança e querem-na já. Mantêm-se coladas às notícias, unhas roídas, tentando perceber nestes primeiros sinais o rumo que Obama vai tomar - será mesmo a mudança ou será mais do mesmo?
Alguns dos comentários tirados do BuzzFlash:
"So with the inauguration less than 60 days away, will those same young people who trudged through the snow and cold to attend their first Iowa Caucus feel as fired up for President Obama after four years of a "Triangulating Bill" Clinton administration redux? Hillary Clinton as Secretary of State, Larry Summers at Treasury, Rahm Emanuel and Eric Holder for Attorney general? This is change?"
"I'm just waiting to see if he changes some of these things. Tear up the Patriot Act. Stop sending billions for wars that are giveaways to war profiteers. Open up all the presidential papers. Investigate 9/11. Investigate the Hedge Funds. Prosecute Bush, Cheney, Rummsfeld and all the other Iraq war cheerleaders. Stop the war rhetoric. Stop giving 3 Billion a year to Israel so they can keep people in ghettos. Stop hate radio. Take care of the least among us. If he does these things he can appoint whoever hell he wants to."
"I wish someone would drive a stake through the heart of the DLC. It looks like they'll be running the show again and we will have a "center-right" government, just like the corporate press says we need for our "center-right" nation. The more things "change", the more they remain the same."
"Obama's NOT going to abandon the centrist philosophy and go left wing. And that's what's pissing us off. I'm glad I didn't give a dime to Obama's campaign."
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Há pessoas que morrem só por querer. Não falo do suicídio, falo do velho que um dia resolve morrer. Senta-se numa cadeira ou deita-se numa cama e sem violência, cordas no pescoço, medicamentos, venenos, balas, ou qualquer outra ferramenta de suicídio, desliga o coração, fecha a última porta no cérebro e morre. Está sempre a acontecer, sobretudo aos viúvos.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
86
«Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê?» - José Saramago, 86 anos
domingo, 16 de novembro de 2008
de dedo bem apontado
Este país de dedo apontado percebe muito de ética e de justiça. Nas horas laborais mete-se internet dentro e aterra nas caixas de comentários dos jornais online para apontar o dedo aos vilões dos títulos. Eles sabem que os vilões são culpados mesmo que a justiça diga que não. Sabem-no tão simplesmente porque lhes está nas entranhas. Têm uma rede de fibra telepática ligada directamente às entranhas uns dos outros. Cada português tem um vilão dentro de si sempre a tentar escapar. É por isso que bradam pela cabeça dos vilões. Querem desesperadamente acreditar que há salvação.
what if
Evito ao máximo as discussões sobre a educação. Não há nada a fazer. Nunca conseguirei mudar as opiniões contrárias porque todas elas, incluindo a minha, foram muito bem pensadas e têm muita lógica. Nunca conseguirei que a minha opinião conte ou que alguém mude a sua a favor da minha nem eu mudarei a minha. Por isso, não vou por aí. É daquelas coisas da vida que me fazem lembrar a minha antiga chefe, quando numa daquelas reuniões em que ninguém concordava com ninguém, ela me dizia assim:
- What if we fire them all and start over again?
Ministra incluída.
sábado, 15 de novembro de 2008
agorafobia

Midori Yamada
Entrou no quarto e começou a despir-se. Já não tremia mas a cabeça ainda transbordava o álcool, a água e a noite. Estava a ficar grande e pesada, uma melancia que a arrastava para o sono, a morte, ou a loucura, um poço sem fundo onde se debruçaria e se deixaria cair levando consigo um desejo formulado há mil anos na agora onde o pânico a trocou por esta que ela agora é. Encontrava-se ao pé do abismo. O abismo é tudo o que há lá fora, não viveu, os risos que não partilhou, os segredos mais escondidos dos outros que se revelam nos momentos mais íntimos e depois se esquecem, a porta que a separa da rua e que insiste em fechar-se porque estraga sempre tudo, porque tem essa forma de ser de nunca levar tudo até ao fim, até às últimas consequências.
Pálida, olheiras fundas, esconde o corpo sob o lençol azul. Quase engolida pelas almofadas brancas, parece um barco à vela à deriva no mar.
- Não me olhem com essa cara de pena! Venham sentar-se aqui, perto de mim.
A Ana senta-se na cama dela e segura-lhe as mãos dentro das suas. Deito-me a seu lado e a cama protesta. Abraço-a e ela repousa a cabeça no meu ombro.
pêndulo
Uma das poucas certezas que tinha enquanto crescia era a de encontrar sempre a minha mãe em casa e, nas raras ocasiões em que isso não acontecia, eu imaginava-a dentro de um comboio, cabelos ao vento, e uma nota sobre a mesa da cozinha vazia que não cheirava a almoço, onde estaria escrito “Adeus, fui viver uma vida só minha e procurar o que tanto preciso”.
Nunca encontrei a nota e a mãe nunca fugiu. Voltava sempre. Afinal tinha ido ao médico, à missa por alma de alguém, ou a qualquer sítio desses onde se pode encontrar tudo menos o que se precisa.
Nos seus anos de depressão ia muitas vezes ao médico. Lembro-me das coisas que eles lhe receitavam, uma papa de argila para colocar sobre o abdómen, por exemplo, e havia um médico no Porto que a punha a olhar para um pêndulo. Sem se rir. Ela achava piada ao pêndulo.
Teria sido mais fácil se o meu pai fosse um monstro mas nunca o foi. Fazia-lhe o pequeno-almoço e levava-lho à cama. Ajudava-a nas tarefas domésticas e era ele quem lidava com as coisas da escola, nos dava sermões e conselhos, nos punha tintura de iodo nos joelhos. Eu pensava que os homens casados eram todos assim. Nunca me passou pela cabeça que o meu pai talvez também tivesse sonhado fugir.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
termómetro
Qualquer coisa não estava certa. Os pés, seriam os pés? O culturista tinha uma t-shirt com palavras inglesas mas não se percebia o que diziam e a mãe com as crianças no carro, sorria, não buzinava, não barafustava com a mão direita que não se levantava furiosa para bater de encontro ao volante e até parou na passadeira, um olho mal pintado, qualquer coisa estava errada com a sua blusa. Os meus pés, reparei depois, calçavam sapatos diferentes e uma das minhas meias era de homem. A t-shirt do culturista estava vestida do avesso e a blusa da mãe que sorria estava mal abotoada, cada botão casado com a casa de cima à qual não pertencia.
Pela rua da manhã fora encontro mil e uma pequenas coisas fora dos seus sítios habituais. Meros detalhes, coisas sem consequência mas de muita importância. Um bancário não pode aparecer no banco com a ponta da gravata enfiada nas calças e manchas de suor nos sovacos. A funcionária do pão-quente não pode aparecer aos clientes com a touca do duche na cabeça. Toda a gente sabe que o toucinho-do-céu não é de porco mas era isso que dizia a etiqueta espetada no toucinho da montra do talho.
Nada pode ser como era esta manhã, repito, mas foi-o e o rapaz imberbe na esplanada do centro histórico, queixava-se da lentidão da internet free e do termómetro do amor que o perseguia nos sites de mp3 com o seu poing poing irritante. Estúpido termómetro; porque nunca mais casam a Maria e o Rui? E quem disse que o amor precisa de um termómetro? Sim. Quem foi que disse que o amor não passa de um poing poing irritante?
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
terça-feira, 11 de novembro de 2008
é das tais coisas
que não fazem sentido nenhum. Quando a esquerda começar a levar a sério os direitos da mulher, nos quais, julgo eu, se inclui o direito de pensarem pela sua cabeça, devo parar de pensar pela minha cabeça.
«(...) Quando a questão dos direitos das mulheres deixar de ser um "fait divers" nas mesas de negociações políticas do mundo, e se começar a atender a essa questão ao mais alto nível da tomada de decisões.
Até essa reforma da esquerda acontecer, uma mulher deve pensar pela sua cabeça e votar pragmaticamente naqueles que em cada momento configurarem em discurso e acção a melhor forma de solucionarem as questões públicas. Mesmo assim... o que isto não custa, pois é mais fácil enfiar um barrete e pensar que estamos em marcha.»
Aqui
(o negrito é meu)
domingo, 9 de novembro de 2008
Felgueiras
Conheci muito bem Felgueiras. Famílias inteiras cosiam muitas gáspeas sentadas nas soleiras das portas no Verão, junto das brasas do fogareiro no Inverno, depois do trabalho na fábrica, ao serão. Crianças de corpos franzinos em linhas de produção de sapatos que jornalistas ingleses calçavam quando, posando de clientela, filmaram no segredo da câmara oculta as fábricas dos meninos e das meninas que não estavam na escola. Os jornalistas portugueses, sempre distraídos, não tinham dado pelo furo mediático. O patrão elevado a comendador que se passeava no Ferrari evitando o proletariado que lhe pedia favores. Os machos sempre muito machos que comiam todas, de inocentes passavam a usadas e daí a putas, na boca deles. Mercedes dos fundos perdidos estacionados à porta dos barrancos a que chamavam fábricas, siberianas no Inverno, equatoriais no Verão. Contabilistas manhosos artistas nas artes da falsificação, bons psicólogos da incompetência conivente da fiscalidade. Lisboa é muito longe e eles também comem, diziam todos e todos comiam a miséria das gentes que desciam montanhas e atravessavam vales, afluindo à terra dos sapatos, à procura do pão, sonhando com o seu pedaço na riqueza rápida do boom do calçado. Nunca houve corrupção em Felgueiras.
As palavras faladas ao microfone contam uma história diferente das palavras que as paredes falam. E toda a gente sempre soube de tudo mas ninguém sabe de nada. Ninguém pode saber porque ninguém pode atirar uma pedra. Foi essa a escola que a Fátima Felgueiras frequentou.
sábado, 8 de novembro de 2008
âncora

Desenho o meu catorze anos enquanto penso nele, nas suas preocupações, desde o bigode que nunca mais cresce ao estado do mundo. Não tenho todas as respostas de que ele precisa e ele pergunta tanto.
Abraça-se a mim. Eu sou a sua âncora, mesmo quando lhe digo que não sei. Algumas coisas ele terá de descobrir por si próprio.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
escolhas
As escolhas que fiz na verdade não foram as minhas escolhas. Limitei-me a escolher entre as escolhas que me foram dadas. Aqui está uma porta azul e aqui está uma verde. Escolhe uma. Também há uma vermelha mas essa está fora do leque das tuas escolhas. Esquece-a. E eu esqueci.
Foi mais ou menos assim.
A única escolha que foi inteiramente minha foi gostar de mim o suficiente para escolher. Em vez de morrer.
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
A Change Is Gonna Come (Aretha Franklin)
(Letra de Sam Cooke)
There’s an old friend
That I once heard say
Something that touched my heart
And it began this way
I was born by the river
In a little tent
And just like the river
I’ve been runnin’ ever since
He said it’s been a long time comin’
But I know my change is gonna come
Oh yeah
He said it’s been too hard livin’
But I’m afraid to die
I might not be if I knew
What was up there beyond the sky
It’s been a long, a long time comin’
But I know my change has got to come
Oh yeah
I went, I went to my brother
And I asked him, "Brother
Could you help me, please?"
He said, "Good sister
I’d like to but I’m not able"
And when I, when I looked around
I was right back down
Down on my bended knees
Yes I was, oh
There’ve been times that I thought
I thought that I wouldn’t last for long
But somehow right now I believe
That I’m able, I’m able to carry on
I tell you that it’s been along
And oh it’s been an uphill journey
All the way
But I know, I know, I know
I know my change is gonna come
Sometimes I had to cry all night long
Yes I did
Sometimes I had to give up right
For what I knew was wrong
Yes it’s been an uphill journey
It’s sure’s been a long way comin’
Yes it has
It’s been real hard
Every step of the way
But I believe, I believe
This evenin’ my change is come
Yeah I tell you that
My change is come..
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
cartas a Salazar
O meu avô materno teve mil e uma profissões. Uma delas, a determinada altura da sua vida, foi escrever cartas a Salazar. A troco de algumas moedas escrevia cartas em nome de pessoas analfabetas. Transmitiam-lhe o que queriam dizer ao ditador e o meu avô traduzia a mensagem para uma linguagem cuidada e floreada, caligrafia impecável, segundo dizia a minha mãe. Por vezes pergunto-me o que terá acontecido a essas cartas. Estarão arquivadas em qualquer sítio ou terão ido directamente para o crematório?
Um dia destes, quem sabe, ainda vou ler uma carta escrita pelo meu avô a Salazar no Caminhos da Memória mas não saberei que é dele. Ele assinava com o nome de outros.
a audácia da esperança

Barak Obama nos anos 60
Teve audácia e hoje foi eleito presidente dos EUA. É impossível não me permitir também a audácia da esperança quando leio no seu discurso:
«And to all those watching tonight from beyond our shores, from parliaments and palaces to those who are huddled around radios in the forgotten corners of our world – our stories are singular, but our destiny is shared, and a new dawn of American leadership is at hand. To those who would tear this world down – we will defeat you. To those who seek peace and security – we support you. And to all those who have wondered if America's beacon still burns as bright – tonight we proved once more that the true strength of our nation comes not from the might of our arms or the scale of our wealth, but from the enduring power of our ideals: democracy, liberty, opportunity, and unyielding hope.»
mas a realidade (essa velha cabra) depressa me bate à porta. Mas reservo sempre alguma esperança no dia em que os que o observam dos parlamentos e palácios deste lado do Atlântico, se sintam tão inspirados por Obama quanto os povos que governam e façam a sua parte na construção de um mundo melhor. Obama não poderá nunca fazê-lo sozinho.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Congo

Karel Prinsloo/AP

Michael Arunga/World Vision/Reuters

Walter Astrada/AFP
É uma história de ódios antigos.
A minha amiga Tutsi desistiu do sonho de regressar ao Ruanda, terra onde nasceu e onde entranhou por baixo da pele esse ódio passado de geração em geração.
Uma vez, em Munique, juntámo-nos numa mesa de amigos de várias nacionalidades. Alguém levara um amigo Hutu e apercebi-me que a distância das raízes, deixadas para trás na infância, não cura nada. A tensão que se tentava disfarçar sob uma capa de boas maneiras e uma educação universitária europeia era perceptível nos olhos que se evitavam, na proximidade física de que se fugia, no desconforto. A minha amiga, sempre tão faladora e bem -disposta, manteve nessa noite um mutismo sombrio.
Depois do extermínio de toda a família – com excepção de um irmão que vive na Polónia – no genocídio de 1994 e quando o sangue parou de correr, ela quis voltar ao Ruanda para ver se tinha sobrado alguém da multidão de irmãos, sobrinhos, tios e primos que formavam a sua família, procurar os rostos amigos e vizinhos da infância, enfim, a gente que lhe guardava as raízes. O irmão pediu-lhe que não fosse porque não era seguro. O sangue e o ódio apenas tinham parado de correr na imprensa internacional, pertença de uma comunidade que pela indiferença endossou o genocídio. O ódio ainda estava lá e o sangue fora só adiado e armazenado, à espera de baptizar as matanças futuras de Hutus e Tutsis, povos de onde saem generais que se auto intitulam libertadores, democratas e protectores do seu povo, explorando esse ódio para, como sempre, servir os seus interesses ou o dos senhores que os atiçam.
O conflito entre Hutus e Tutsis continua no leste do Congo, região muito rica em recursos naturais. Alguns jornais chamaram o conflito à primeira página mas as vozes dos deslocados, dos refugiados, dos que sofrem, são abafadas pela poluição visual e sonora de umas eleições americanas, onde tudo é reportado e esmiuçado até ao tutano, para entreter o mundo que espera o final feliz dessa grande novela.
A minha amiga disse-me que não chorou os familiares massacrados. «Não consigo chorar», disse-me e também não quis ver o Hotel Ruanda. Como se chora uma família inteira? E como choramos nós um povo inteiro? A dor pode ser de tal forma gigantesca que não chega a tocar-nos. Somos demasiado pequenos para ela, para a deixar invadir o coração.
domingo, 2 de novembro de 2008
apoios inesperados

Tom Metzger, ex líder da Ku Klux Klan e director da Director, White Aryan Resistance
“The corporations are running things now, so it’s not going to make much difference who’s in there, but McCain would be much worse. He’s a warmonger. He’s a scary, scary person–more dangerous than Bush. Obama, according to his book, Dreams Of My Father, is a racist and I have no problem with black racists. I’ve got the quote right here: ‘I found a solace in nursing a pervasive sense of grievance and animosity against my mother’s white race.’ The problem with Obama is he’s being dishonest about his racial views. I’d respect him if he’d just come out and say, ‘Yeah, I’m a black racist.’ I don’t hate black people. I just think it’s in the best interest of the races to be separated as much as possible. See, I’m a leftist. I’m not a rightist. I hate the transnational corporations far more than any black person.”
Rocky Suhayda - presidente do Partido Nazi Americano
"White people are faced with either a negro or a total nutter who happens to have a pale face. Personally I’d prefer the negro. National Socialists are not mindless haters. Here, I see a white man, who is almost dead, who declares he wants to fight endless wars around the globe to make the world safe for Judeo-capitalist exploitation, who supports the invasion of America by illegals--basically a continuation of the last eight years of Emperor Bush. Then, we have a black man, who loves his own kind, belongs to a Black-Nationalist religion, is married to a black women--when usually negroes who have 'made it' immediately land a white spouse as a kind of prize--that’s the kind of negro that I can respect. Any time that a prominent person embraces their racial heritage in a positive manner, it’s good for all racially minded folks. Besides, America cares nothing for the interests of the white American worker, while having a love affair with just about every non-white on planet Earth. It’d be poetic justice to have a non-white as titular chief over this decaying modern Sodom and Gomorrah."
meio
Não sei o que seja o Meio. Sempre que me deparo com a palavra Meio dá-me logo vontade de olhar para as Pontas. As Pontas são sempre muito mais interessantes. São elas que dão razão de ser ao Meio.
revolução
Quando a menarca chegava passávamos a pertencer ao clube das mulheres, com pleno direito a usar o respectivo crachá – o penso higiénico. Era o mundo feminino e privado que nos engolia de uma vez, de onde não havia retorno e que punha fim a qualquer ambiguidade de género que pudesse ainda existir, povoado por factos médicos que se aprendiam nas revistas femininas e pela superstição transmitida pelas avós – aquela coisa das luas e de não lavar o cabelo ou fazer o pino para o sangue menstrual não subir, neste caso descer, à cabeça –, de olhares superiores sobre as criancinhas por abençoar com a grande dávida da mãe natureza e que não podiam, por isso, ser dispensadas da ginástica.
A dávida, a máquina de fazer bebés, rapidamente passava a maldição, pelos incómodos da torrente mensal, as dores das contracções uterinas e a irritação que, dizia-se, nos metamorfoseava em megeras. Depois havia todos os rituais associados a ser mulher, desde o uso de rímel às torturas da estética infligidas no corpo. Via as mais velhas arrancarem a pele com cera depilatória e ver doía-me tanto como a menstruação. Diziam que «para se ser bela é preciso sofrer», mas se ser mulher já era sofrer; não chegava esse sofrimento? Era preciso arrancar bigodes imaginários também? E havia os panos, e os cintos e os alfinetes para os segurar no sítio, o enchumaço sempre vermelho húmido, sempre a lembrar às raparigas essa inferioridade que era a condição feminina. A minha irmã ainda usou os panos mas eu entrei no clube em plena revolução StayFree. A maior revolução dos anos setenta foi a dos pensos higiénicos. Com fita adesiva.









