domingo, 26 de outubro de 2008

notícia

Esquematizou o plano dentro da sua cabeça. Entraria com ele no metro e regressaria a casa sozinha. Ninguém se incomodaria a chamá-la à saída da composição “Desculpe, esqueceu-se…”
Os funcionários do metro encontrá-lo-iam mais tarde e, seguindo as regras, entregá-lo-iam numa das estações da rede onde ficaria até à quarta-feira seguinte. Seria então recolhido junto com os carrinhos de bebé, as tábuas de brunir, as carteiras cheias de dinheiro, as chaves, os sacos de compras, peças de vestuário, todos as coisas que as pessoas deixam esquecidas no metro, e enviado para o comando central. Seria registado e receberia um código. Não seriam encontrados quaisquer documentos ou pistas que permitissem aos funcionários chegar até ela.
Passaria um mês numa das salas do posto de comando central à espera que ela se lembrasse de o reclamar. Ela lembrar-se-ia dele todos os dias durante um mês mas não o reclamaria. Ao fim de trinta dias, seria enfiado num saco preto e enviado para a esquadra da PSP em Custóias.
O que aconteceria a seguir não sabia. A notícia do JN não falava disso e também não era importante. Por essa altura já não lhe encontrariam o rasto.
Ela compraria um vestido novo e sapatos de salto alto. Iria à esteticista fazer a depilação e ao cabeleireiro fazer um corte de cabelo moderno, umas madeixas loiras talvez. Iria ver os golfinhos e sairia de lá a sorrir. Diria aos vizinhos curiosos que ele tinha fugido com outra. Eles teriam muita pena dela, «coitada, dedicou-lhe a sua vida, comida na mesa, cama e roupa lavada, e agora que a juventude se foi ele faz-lhe uma destas. Olhe que os homens não prestam». E ela pensaria, pois não, não prestam, e daria conselhos a outras solteiras. «Nunca levem nada que encontrem no metro para casa», como ela tinha feito trinta anos antes quando o encontrou abandonado no comboio da linha da Trofa.

2 comentários:

CCF disse...

Muito, muito bom!
~CC~

Maria N. disse...

Obrigada CC. Fiquei intrigada com as coisas que se esquecem no metro. Esquecer coisas de pouco volume acontece-nos a todos, sobretudo chaves e carteiras, mas pneus e tábuas de passar a ferro? São objectos pesados, grandes. Daí a lembrar-me de outros pesos que as pessoas transportam, sem coragem de os descartar... mas agora que leio de novo o texto vejo que poderia tê-lo trabalhado melhor, mas isto é um blogue, não uma publicação. Sai como sai :)