domingo, 5 de outubro de 2008

Há muito tempo que não vejo a mulher do Sr. José. Pequenina, magrinha, sempre atarefada, a primeira vez que a vi – juntava o feno – falou comigo como se me conhecesse de pequena. Gostou de mim e eu gostei dela. Percebemo-nos logo uma à outra. Parou de trabalhar para me falar e quis compor o cabelo. Desfez o toco deixando cair o cabelo pelas costas, comprido, fino, grisalho, linhas de prata misturadas com linhas de ouro, que logo começou de novo a enrolar, com perícia, enganchando-o de volta na nuca, o lugar onde deve ter passado quase toda a sua vida. Contou-me a história da quinta e das pessoas que a habitaram, mas nada sabia do Meireles, o tal cujo nome ficou gravado na pedra junto à data de construção. 
Ela tem um olho de cada cor, um azul céu e outro azul esverdeado. O que foge mais para o verde é cego e mais pequeno que o outro. Quando fala comigo esse olho não olha para mim e eu evito olhar para ele com receio que o outro se ofenda. É estranho falar só para um olho.
Sofre do coração e já não sai de casa, nem recebe visitas, por causa das emoções diz o Sr. José, por isso, já não a vejo, mas lembro-me frequentemente dela. Imagino-a na cozinha, segurando um frango entre as pernas, faca na mão, pronta para o degolar. Penso que é igualzinha à minha avó paterna, que não conheci mas cuja imagem construí a partir do que dela conta o meu pai, dona de uma bondade sem limites até na forma de matar.

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