sexta-feira, 17 de outubro de 2008

funeral

A mão esquerda do meu irmão em cima da mesa, dentro de uma chávena. Não era a mão inteira mas sim os pedaços dela que a minha avó colheu nas paredes da cozinha. O polegar estava intacto. Vai a enterrar no cemitério, disse a minha avó.
A mão antecipava-se ao meu irmão na morte, no enterro, no do pó vieste ao pó voltarás.

De noite acordava transpirada de sonhos onde ficava sem mãos, sem pés, sem cabeça, da angústia de ser enterrada aos pedaços, assistindo ao meu funeral aos bocados. O meu irmão também acordava, aos gritos pela minha mãe. Ela levantava-se, confortava-o e voltava para a cama dela. Ele levantava-se e metia-se na minha cama. Enrolava-se na posição fetal e fazia o caracol no meu cabelo com a mão que lhe restava. Adormecíamos assim os dois.

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