
© Nick Veasey
à noite por magia levanta-se a abóbada
sob o quarto de lua nos ramos das árvores.
abre-se a luz para o som dos grilos na erva
a brisa que te suga até à folhagem do jamboeiro;
estendes-me a mão tatuada pelas criaturas da Índia
agitando fios de prata nos meus pulsos;
- leva-me a espiar a coruja espevita que aguarda a presa.
depois de tudo o regresso ao baú
que nos guarda o corpo em segredo
entre a roupa branca, linhos, mortalhas azuis,
as máscaras do último carnaval em Veneza.
ainda por magia fecha-se a abóbada
sobre o nosso lado a lado agarradas
ao grito da vítima ao sangue no chão
à nova tatuagem da criatura espevita.
fecha-se sobre nós a caverna elefantíaca
onde moram todos os deuses da Índia
que se deixaram pintar do lado de fora
noutra noite imensa de lua maldita.
Será que podias, tipo, de uma vez por todas, tipo, parar de dizer tipo, tipo, porque irritas, tipo, os meus ouvidos? Já reparaste, tipo, quantas vezes, tipo, dizes tipo, tipo, numa única frase?
Tipo, muitas vezes! É, tipo, um exagero. Não é bonito, tipo, falar em fragmentos e a pessoa com quem falas, tipo, diz tipo, tipo muitas vezes também. Será que se ouvem, tipo, um ao outro?
(Irritante esta moda do tipo que se propaga pelas bocas adolescentes com a velocidade de um vírus informático)
Quando vejo palavras como universidade, cérebros e formação numa frase e de seguida vejo palavras como praxe, humilhação, violentação, totalitarismo e tradição noutra, a vida assume-se de uma imensa ironia.
O diário de Daniel Hahn sobre o processo de tradução do livro de Agualusa, Estação das Chuvas. Hahn aceita sugestões e responde a quem comenta.


Chega-se sempre a um momento em que os que fanaticamente defendem as suas escolhas acreditam que sem o medo não existe salvação. Mas é interessante ver o contraste. O poster da Palin evoca os monstros do imaginário supersticioso, das metamorfoses provocadas pela noite e pela lua, do contágio do mal induzido pela dentada do vampiro - uma metáfora para o acto de se fiar na vitória garantida de Obama e não ir votar. O panfleto que liga Obama a Ayers evoca os monstros reais fabricados em casa.
Esquematizou o plano dentro da sua cabeça. Entraria com ele no metro e regressaria a casa sozinha. Ninguém se incomodaria a chamá-la à saída da composição “Desculpe, esqueceu-se…”
Os funcionários do metro encontrá-lo-iam mais tarde e, seguindo as regras, entregá-lo-iam numa das estações da rede onde ficaria até à quarta-feira seguinte. Seria então recolhido junto com os carrinhos de bebé, as tábuas de brunir, as carteiras cheias de dinheiro, as chaves, os sacos de compras, peças de vestuário, todos as coisas que as pessoas deixam esquecidas no metro, e enviado para o comando central. Seria registado e receberia um código. Não seriam encontrados quaisquer documentos ou pistas que permitissem aos funcionários chegar até ela.
Passaria um mês numa das salas do posto de comando central à espera que ela se lembrasse de o reclamar. Ela lembrar-se-ia dele todos os dias durante um mês mas não o reclamaria. Ao fim de trinta dias, seria enfiado num saco preto e enviado para a esquadra da PSP em Custóias.
O que aconteceria a seguir não sabia. A notícia do JN não falava disso e também não era importante. Por essa altura já não lhe encontrariam o rasto.
Ela compraria um vestido novo e sapatos de salto alto. Iria à esteticista fazer a depilação e ao cabeleireiro fazer um corte de cabelo moderno, umas madeixas loiras talvez. Iria ver os golfinhos e sairia de lá a sorrir. Diria aos vizinhos curiosos que ele tinha fugido com outra. Eles teriam muita pena dela, «coitada, dedicou-lhe a sua vida, comida na mesa, cama e roupa lavada, e agora que a juventude se foi ele faz-lhe uma destas. Olhe que os homens não prestam». E ela pensaria, pois não, não prestam, e daria conselhos a outras solteiras. «Nunca levem nada que encontrem no metro para casa», como ela tinha feito trinta anos antes quando o encontrou abandonado no comboio da linha da Trofa.
«Universities are, by nature, so conservative. My colleagues don’t get, don’t want to get post post-modernism. Meanwhile, their students, their children are in the midst of the real deconstruction of the entire culture and it has not, will not take place at the university but here out there. I love the way the Web has worked around anything thrown at it, especially the desire of universities, publishing, etc., to re-impose the gates for gate-keeping of quality and the maintenance of hierarchy. Just work around it. The machine easily ignores it. The author is dead all right but long live writing. This is the end of the Johnsonian Age, the end of the Romantic, Modernist Individual Genius. I think that blogs actually are retrograde—the last attempt of the old-fashioned author to hold on to old-fashioned authorship. I think very soon blogs might evolve to the point where most will be unsigned or the same blog will be written by several people together or separately and also posted without a name of a shared name. The blog lives but the idea that it is written by any one person or consciousness will be so over. It is nothing but net baby. Out of many one. Resistance is futile. Prepare to be assimilated.» - entrevista de Michael Martone no The Quarterly Conversation

As minhas vozes interiores falam umas com as outras. Diz a voz do lado esquerdo que a do direito pensa mal. A outra repõe dizendo que ela não sabe podar roseiras.
A verdade é que nunca podei a roseira da Adeline. As rosas sempre floriram aos montes, brancas, bonitas; achei que não era preciso mexer no que era perfeito. As vozes mentem uma à outra, tanto quantas as pétalas que têm.
Gosto desta palavra. Tem música e faz lembrar coisas bonitas e poéticas.
Antigamente o pirilampo chamava-se caga-lume. Caga-lume também tem música mas estava para o pirilampo como a música pimba está para a erudita. Era do povo.
odeio a escola
odeio a escola
odeio a escola
o d e i o a e s c o l a
dizia o meu filho mais velho enquanto caminhava atrás de mim, contrariado, mochila às costas, sobrancelhas cerradas, linhas do rosto em revolta.
estúpido Gil Vicente
probabilidades chatas
ignorantes
un, deux, trois, quatre, cinq, six
odeio a escola
e quando penso que nada pode piorar eis que nos cruzamos com um colega de turma que se mete com o bigode dele, ou melhor, a falta dele, para me provar que estava errada
as coisas podem sempre piorar

Nunca quis ser um rapaz excepto quando tinha de interromper as brincadeiras na rua para fazer chichi. Nessas alturas um pénis ter-me-ia dado muito jeito. Perdi muito tempo a correr para casa, subir escadas, descer cuecas, fazer chichi, subir cuecas, descer escadas. Quando chegava à rua os donos de pénis diziam assim:
- Quem foi ao mar perdeu o lugar.
A mão esquerda do meu irmão em cima da mesa, dentro de uma chávena. Não era a mão inteira mas sim os pedaços dela que a minha avó colheu nas paredes da cozinha. O polegar estava intacto. Vai a enterrar no cemitério, disse a minha avó.
A mão antecipava-se ao meu irmão na morte, no enterro, no do pó vieste ao pó voltarás.
De noite acordava transpirada de sonhos onde ficava sem mãos, sem pés, sem cabeça, da angústia de ser enterrada aos pedaços, assistindo ao meu funeral aos bocados. O meu irmão também acordava, aos gritos pela minha mãe. Ela levantava-se, confortava-o e voltava para a cama dela. Ele levantava-se e metia-se na minha cama. Enrolava-se na posição fetal e fazia o caracol no meu cabelo com a mão que lhe restava. Adormecíamos assim os dois.
Notícia no JN sobre a abertura do centro comercial Mar Shopping em Leça de Palmeira, Matosinhos.
«Ana Pinto, de 18 anos, saiu de casa a faltarem quarenta minutos para as sete da manhã e rumou de carro até ao shopping. De rosa em punho, fruto de ter sido uma das primeiras clientes do hipermercado, a jovem "tinha esperança que houvesse vales de compras para os primeiros clientes" e, por isso, "madrugou".
Ainda assim, Ana sente que não fez a viagem em vão, até porque "é um centro comercial muito agradável", mostrando ansiedade para conhecer todas as lojas.» - aqui

Tinha por hábito enfiar-me dentro dos armários. O armário preferido era o da minha mãe, por causa do cheiro. Cheirava à mãe e eu adormecia nele com as portas fechadas. Ela nunca fechava os braços sobre mim para me abraçar e eu contrariava as experiências de privação dos sentidos com perfume.
Tenho a casa cheia de alemães e um americano. No fim de jantar, as mulheres começam a levantar a mesa e os homens, nota-se, sentem-se desconfortáveis. Não conseguem ficar sentados enquanto nós trabalhamos. Levantam-se e ajudam. Quando digo ajuda é mesmo ajuda e não apenas levar pratos e talheres para a cozinha. Voltam a sentar-se quando nós nos sentamos.
falavam do casamento dos homossexuais.
- Se um dos meus filhos fosse homemsexual eu teria um grande desgosto – diz-me a Rosinha que já vai no terceiro café.
- Então porquê, Rosinha? Não deixaria de ser seu filho e ser o mesmo que é.
E continuo, explicando-lhe o que penso, calando-me quando me apercebo que estou quase a dar-lhe um sermão e que ela não está a ligar patavina ao que eu estou a dizer. Vira-se para mim:
- Já viu bem o que seria a vida dele? Só de pensar no que ele iria sofrer toda a vida; aturar os outros, a fazerem pouco dele, levar porrada… Deus me livre!
Precipitei-me. Pensei que ela tinha a cabeça cheia de profecias apocalípticas e receio de não ter netos, mas afinal ela tem medo do ódio e da rejeição dos outros. Tem medo do que a civilização ocidental ainda esconde na cave, junto daquelas coisas que não sabe bem se há-de deitar fora e que por isso guarda, no caso de vir a ser preciso. Como faz o PS.
Apetece-me às vezes escrever cartas e tenho saudades dos tempos em que esperávamos pelo carteiro com ansiedade, para ver se ele trazia cartas dos amigos, dos namorados, dos familiares. Cada carta uma caligrafia cuidada, algumas decoradas com desenhos, rematadas com poemas e citações; também havia em línguas estrangeiras, com carimbos bonitos e selos que nos davam um vislumbre de outras culturas. Tudo isso fazia parte da beleza das cartas: a espera, o envelope, os selos, a caligrafia, a leitura, a resposta escrita, primeiro em rascunho e depois passada a limpo no papel mais caro. Guardavam-se cuidadosamente numa caixa bonita de metal ou de madeira, para voltar a ler mais tarde, tocando-as, sentindo-lhes o cheiro. Hoje o carteiro só traz contas, publicidade e postais escritos à pressa por amigos que foram de férias para qualquer lado exótico e que, não raras vezes, regressam antes do postal chegar.
Não é apenas a conhecidos que me apetece escrever. Também me dá vontade de escrever a pessoas que nunca vi mas que, de tanto as ler, aprendi a conhecer. Sinto-me amiga íntima delas no meu papel de confidente anónima, que as escuta em silêncio, quando muito deixando um comentário tímido na caixa de comentários (quando a têm), que as compreende, que lhes nota as virtudes e os defeitos, e que por isso gosta delas. Fazem parte da minha vida. Todas as manhãs abro o meu leitor de RSS, para ver se pessoas que não me conhecem de lado nenhum escreveram alguma coisa, se têm novidades para me dar dos cantos que habitam ou as ideias que os seus pensamentos habitam. Eu escuto. Não digo nada mas escuto. E fazem-me bem.
O meu Google Reader substituiu o carteiro. Perdeu-se a nobreza do correio à moda antiga mas o moderno também não está mal. O carteiro nunca me trouxe cartas de desconhecidos e vendo bem as coisas, também são feitas à mão.
"Tudo, de facto, parecia correr bem. É essa aparente ausência de presságios que torna a situação actual ainda mais assustadora."
Leio o debate sobre a educação no blogue do grupo parlamentar do PSD e vem-me à memória a famosa frase de Mark Twain - «Education is the path from cocky ignorance to miserable uncertainty.»
O José Pacheco Pereira disse que apenas 1% da blogosfera* se aproveita e a blogosfera ofendeu-se. O Miguel Esteves Cardoso disse que não senhor, há pelo menos 100 blogues muito bons. A blogosfera respirou fundo e alegrou-se.
Abençoado MEC. Sem ele a blogosfera ficaria para sempre na dúvida.
*Blogosfera é o nome que se dá ao conjunto dos blogues políticos. Os restantes dão-se pelo nome de blogocubo.
«(...) basta folhear um suplemento cultural de um jornal para se encontrar um uso peculiar das palavras, em que estas perderam o poder de invocar pensamentos identificáveis, colocando-se ao invés toda a ênfase na transmissão da mensagem infantil de que o autor é culto — e com isso tudo o que se pretende realmente dizer é que é superior a nós, mais elevado, mais próximo dos deuses do Olimpo: um aristocrata.»Esta aristocracia cultural não sobrevive sozinha, fechada no seu círculo de eleitos, porque se alimenta da ignorância da maioria. Usam as fontes de conhecimento dessa maioria, como os jornais, revistas e blogues para chegarem a uma audiência alargada, não para transmitirem conhecimento (que é nenhum devido aos códigos que usam para complicarem a mensagem), mas para legitimarem a existência da sua elite. Apresentam uma arrogância que acaba por torná-los vítimas do desprezo, não só daqueles que possuem conhecimento a par de uma preocupação legítima em transmiti-lo, como dos que não o têm e se sentem um pouco como o proletário de Marx subjugado pelo capitalista, excluído de algo que deveria ser do bem comum.
Há muito tempo que não vejo a mulher do Sr. José. Pequenina, magrinha, sempre atarefada, a primeira vez que a vi – juntava o feno – falou comigo como se me conhecesse de pequena. Gostou de mim e eu gostei dela. Percebemo-nos logo uma à outra. Parou de trabalhar para me falar e quis compor o cabelo. Desfez o toco deixando cair o cabelo pelas costas, comprido, fino, grisalho, linhas de prata misturadas com linhas de ouro, que logo começou de novo a enrolar, com perícia, enganchando-o de volta na nuca, o lugar onde deve ter passado quase toda a sua vida. Contou-me a história da quinta e das pessoas que a habitaram, mas nada sabia do Meireles, o tal cujo nome ficou gravado na pedra junto à data de construção.
Ela tem um olho de cada cor, um azul céu e outro azul esverdeado. O que foge mais para o verde é cego e mais pequeno que o outro. Quando fala comigo esse olho não olha para mim e eu evito olhar para ele com receio que o outro se ofenda. É estranho falar só para um olho.
Sofre do coração e já não sai de casa, nem recebe visitas, por causa das emoções diz o Sr. José, por isso, já não a vejo, mas lembro-me frequentemente dela. Imagino-a na cozinha, segurando um frango entre as pernas, faca na mão, pronta para o degolar. Penso que é igualzinha à minha avó paterna, que não conheci mas cuja imagem construí a partir do que dela conta o meu pai, dona de uma bondade sem limites até na forma de matar.

foste sempre em mim uma floresta entrecortada de caminhos
uma crueza lúcida, uma pausa esguia
«A Federação Nacional dos Invisuais dos EUA está a preparar um protesto contra o filme “Blindness”, que estreia esta semana nos Estados Unidos. O filme realizado por Fernando Meirelles é baseado no livro “Ensaio sobre a cegueira”, do Nobel da Literatura Português José Saramago. Com estreia marcada na sexta-feira em 21 estados norte-americanos, o filme está a causar polémica entre os invisuais que se queixam da imagem que é passada no filme sobre os cegos.http://blindness-themovie.com/
O presidente da Federação Nacional dos Invisuais (NFB), Marc Maurer, citado pela BBC online, afirmou ontem que "o filme retrata as pessoas cegas como monstros e acredito que é pura mentira.”» - Público