quinta-feira, 4 de setembro de 2008

a rua da luz encarnada

A rua abre-se para a praça, escondendo um pouco o sol devido às sombras projectadas pelas casas antigas que gente endinheirada em tempos habitou. Vivem lá os bêbados, as prostitutas, os chulos, os traficantes, operários de salário baixo, desempregados dos têxteis, anões, ladrões, mercenários. Para melhor aproveitar os grandes espaços, os casarões foram divididos em habitações cujas paredes pouco mais absorvem o som que o lençol estendido numa corda, que há alguns anos cortava salas e famílias ao meio.
As crianças brincam na rua, muito para além dos olhos das mães. Brincam ao pião, ao esconde-esconde, jogam futebol, quando há bola, apanham pontas de cigarros do chão que fumam em poses imitando os adultos. Banham-se no fontanário da praça, que já ninguém utiliza, esparrinhando água, gargalhadas e palavrões para todo o lado, para cima de quem vá a passar, umas vezes sem querer, outras vezes propositadamente. As mães passam o tempo que estão em casa, a lavar chãos, janelas, roupa no tanque municipal num sobe e desce de bacias equilibradas nas cabeças. Descansam nas soleiras das portas que brilham e cheiram a lixívia, coscuvilhando com as vizinhas as vidas recíprocas.
As velhas só saem de casa para ir à igreja. Encostam-se à janela e penduram os rostos engelhados nas cordas, ao lado das roupas que secam ao sol.

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