sexta-feira, 26 de setembro de 2008

povo


© Martin Brogen

O povo que me rodeia é aquele que me deixa coisas na entrada da porta, homens que se ajudam trabalhando nos campos uns dos outros, mulheres que cozinham para o divorciado que vive sozinho, quando adoece, que deixam portas abertas e são roubados por forasteiros de países longínquos como a Roménia (como raio vierem dar com a nossa aldeia? não sabem que é tudo pobre por aqui?), que são enganados por burlões de gravata com promessas de reformas chorudas da França, que nunca foi a Lisboa quanto mais ao Algarve, e que do Porto só conhece bem os hospitais, que pede licença antes de cortar as minhas hidrângeas azuis para assear a igreja, que alimenta os cães e gatos vadios, que se junta e vai todo junto, de porta em porta, pedir para ajudar a pagar a cadeira de rodas da menina do Zé de baixo, me ensurdece com a música pimba nas noites de festa com os imigrantes e as ave-marias nos altifalantes da igreja nos dias santos, que vai à praia aos domingos na camioneta das oito, porque não se pode levar o farnel na mota, e volta à tardinha, vermelho como uma lagosta e olhos vertidos de mar, mãos e bainhas das calças cheias de areia dos castelos que deixaram no areal.

3 comentários:

Anónimo disse...

Podia ter sido escrito por mim , sobre a minha aldeia...
É as estas raízes que vou "recarregar baterias"! Como a compreendo!
Este é o bom povo português, aquele a que pertenço - com orgulho.

Helena disse...

...e que organiza peditórios para pagar a festa da padroeira, e que se dá conta que os ricos pagam muito menos que os pobres, que se junta para ajudar a pagar o funeral do Zé, que será muito mais caro porque ele fazia questão de ir para o jazigo,...

(Adoro a maneira de falar no Minho.)

Maria N. disse...

Helena,
Obrigada pela visita. Tem muita razão sobre os ricos darem menos que os pobres e também é verdade que eles se apercebem disso.