domingo, 28 de setembro de 2008

Magalhães

O Pedro descalça-se antes de entrar. «Venho brincar».
Brincar com os castelos, às vezes é dos bons, às vezes é dos maus, até os guerreiros não serem suficientes. Aí, o Pedro e o meu dez anos, improvisam uma capa duma toalha que atam no pescoço e, com espadas de pau, batalham pela posse das escadas de caracol, até não ser suficiente. Saem para o jardim, para os campos, e conquistam árvore atrás de árvore, até ao muro que separa o meu terreno da horta dos pais dele. Estão próximo do tanque e resolvem apanhar lagartixas. São os dragões.
Chamo-os para lanchar e deixo-os sós na cozinha. «Arrumem tudo quando acabarem».
O Pedro vai ter um Magalhães, quando chegarem aqui. A julgar pela forma como coloca os sapatos, alinhados pelo tapete da entrada, cordões metidos para dentro para que os gatos não os mordam, a sua preocupação com as horas, «Já são cinco horas? Tenho de estar em casa às cinco para ajudar a minha mãe», a forma cuidadosa como devora os livros de história e ciências nas estantes dos meus filhos, e pela falta de luxos em casa, ele tratará o Magalhães como um tesouro. Quase teve um computador no último natal mas o pai juntou-se à mãe no desemprego e já não houve dinheiro.
- No fim de lanchar, podemos brincar no teu computador? – pergunta o Pedro.
- Podemos.
- Eu fico só a ver-te jogar. Posso enganar-me nas teclas e estragar-te o disco.
Às vezes o Pedro traz um amigo. Às vezes dois ou três.

9 comentários:

CCF disse...

Exemplarmente bonito! Também conheço desses Pedros.
~CC~

Anónimo disse...

merda
vieram-me as lagrimas aos olhos.
ja nem sei como vim aqui ter, fui seguindo links.
valeu a pena para ler um dos posts mais bonitos que ja li. tras-me muitas recordacoes, de amigos antigos.
sei lá, conheci muitos pedros.
obrigado.
MUITO obrigado

blue disse...

que sorte, Pedros assim por perto...

Maria N. disse...

Obrigada pelos vossos comentários.
Acho que é mesmo sorte porque é cada vez mais difícil escapar ao destino dos miúdos pobres, filhos de gente desempregada, rural, longe das bibliotecas e das escolas bem apetrechadas, que completarão o 9º ano obrigados e com a ajuda do facilitismo, predestinados a uma espécie de vida inferior. É muito bom ter Pedros por perto, principalmente na vida dos meus filhos; não pela pobreza, mas pela generosidade, pela valorização do conhecimento e pela força de vontade de não ficarem atrás dos outros, mais afortunados de meios e que tantas vezes os desprezam.

Helena disse...

Comovente!
Que vontade de agarrar em todos os livros portugueses que tenho aqui e mandar para o Pedro!

snowgaze disse...

Faço minhas as palavras da Helena.
Será que por aí há uma biblioteca? Conheci alguns "Pedros" que passavam lá a vida...

Maria N. disse...

Snowgaze, há uma biblioteca razoável na cidade mais próxima mas não é fácil para o Pedro lá ir. Por enquanto vai lendo o que há cá em casa e na escola. Tenho a certeza que quando crescer vai passar lá muito tempo.

Ana disse...

Um post lindo... Mas, não me leve a mal, retire o "trás um amigo" e coloque o "traz"...

Maria N. disse...

Ana, não levo a mal, até agradeço. Não me incomoda nada que me apontem as distracções da língua.