segunda-feira, 8 de setembro de 2008

é eremita

Não, não é, diz-me, de vez em quando sai. Está bem.
A aldeia onde vive parece ter-se deslocado no mapa mas acabo por encontrá-la. Isolou-se aqui, longe de tudo e dos vizinhos. Eles acham que ela é louca.
Não é preciso bater o calçado no tapete da entrada porque o chão da sala ainda é de terra batida. O velho sofá ainda lá está, coberto por pêlos de cão, e o cão também, estendido em cima dele. Dir-se-ia que não se moveu desde a última vez que a visitei.
As telas estão espalhadas pela casa, nas paredes, no chão, pelos cantos. Os desenhos espreitam dos gavetões emperrados mal fechados do louceiro e esboços a carvão pousam na mesa, no aparador; levantam voo quando abre a janela para deixar entrar alguma luz. A porta do quarto de banho está aberta e o espelho reflecte o poster do Arco do Triunfo fotografado de noite, todo iluminado, que ela pendurou na parede oposta. Memórias de uma cidade que lhe serviu de refúgio quando pensou que por ter estado na Líbia o melhor era fugir. Não valia a pena mas sempre serviu para conhecer Paris, fazer a peregrinação dos museus e comprar o poster.
Andou sempre a fugir de qualquer coisa. Mal saída da puberdade começou a procurar sítios para se esconder, onde pudesse metamorfosear os impulsos obsessivos em liberdade espiritual. Enfiava-se no sótão, entre o entulho e as centopeias que o habitavam, e lá passava horas, imóvel, contemplando os telhados vizinhos pela pequena janela ou a luz que atravessava a clarabóia. Sentava-se como um budista em meditação. Não falava. Tentei fazer o mesmo sentando-me ao seu lado numa espécie de competição do silêncio. Ela ganhava sempre. Deveriam ter percebido, os pais, mas não quiseram saber. «Está-se a armar», diziam, «são fases da adolescência».
Faz o chá porque sabe que não bebo café e sentamo-nos no alpendre com a chávena na mão. O chão em granito está preenchido com desenhos a giz. É o reflexo do tecto e das paredes da casa, tão bem executado que não é preciso fazer muito esforço para nos sentirmos em cima de um espelho. Por momentos quase pergunto se não estou dentro de uma tela, se as árvores e a relva do jardim não serão também pinturas.
Diz-me que não consegue controlar o impulso para desenhar. «Deve ser uma doença mental, daquelas que nunca foram estudadas, sem nome». Ela diz que não é criação artística, é uma doença porque «na verdade, tudo o que faço é uma merda». Percebo que acredita mesmo nisso e talvez explique a sua repulsa por exposições, galeristas, publicações; não me autoriza a colocar aqui um dos seus desenhos.
Os filhos estão crescidos mas apenas os vislumbro. São eremitas como ela. Vivem dentro do computador e falam uma língua binária, uma sucessão de uns e de zeros.
Passamos assim algumas horas, entre conversa e silêncios, até eu sentir que quer que me vá embora. Venho embora mas antes peço-lhe que faça qualquer coisa ao cão. Diz que não tinha reparado mas tratará do assunto.
Atraem-me as obsessões e as pessoas que sobrevivem dentro delas. Por causa delas esquecem-se de comer, roubam horas ao sono, crescem-lhes olheiras nos olhos, empalidecem a pele. Esquecem-se do chão de terra batida na sala, dos vasos que imploram alimento e do cão morto estendido no sofá.

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