sexta-feira, 19 de setembro de 2008

engano


House of the last dragon - Jana Brike

Lembro-me de brincarmos juntas na sala que ficava por cima da adega da avó dela. A casa caía de podre, o soalho ferido nos buracos que sugavam os nossos pés, se não tivéssemos cuidado, e paredes que não cicatrizavam. Não tínhamos autorização para subir, devido ao perigo, mas escapulíamo-nos para lá, sorrateiras, protegidas pelas barrigas dos pipos de vinho que escondiam a nossa sombra, de pipo em pipo, até às escadas. A avó dela era fácil de enganar.
Não havia nada de interessante na sala excepto ser interdita desde o dia em que Marcelo Caetano visitara o burgo.
A multidão aglomerou-se pelas varandas da praça, decoradas com as colchas de seda como se fosse sair a procissão, para ver e acenar a sua excelência. A casa da adega tinha as varandas cheias mas um velhote, colocando sem querer o pé numa tábua podre do soalho, caiu, abrindo um buraco onde ficou preso até a cintura. Da varanda do patronato, onde eu estava junto com as outras crianças, bandeirinha de Portugal de papel na mão, conseguia ver os esforços das outras pessoas, lutando contra a gravidade, para o tirarem de lá. Quando o resgataram, são e salvo, eu bati palmas e reparei que toda a gente fazia o mesmo. O Marcelo Caetano, ignorante do velhote, pensou que as minhas palmas eram para ele. Quando partiu, fui reclamar a minha parte de rebuçados que os padres distribuíam às crianças. Tinha-me portado bem, abanado a bandeirinha e batido palmas. Sua excelência era como a avó da Paula. Fácil de enganar.

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